sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

MINHAS IMPRESSÕES SOBRE O PRÊMIO ARTEMISÍA - 2018

Quadrinistas premiadas em 2018
Ano passado eu tive oportunidades e privilégios. Em janeiro passado eu pude participar pela primeira vez do Festival Internacional de Angoulême, na França. Conheci vários quadrinistas, homens e mulheres, estrangeiros como os quais mantive contato durante todo o ano. Além disso, eu ainda me encontrei pessoalmente com a quadrinista italiana Cecília Capuana, sobre quem já havia publicado um texto. 

Alguns meses depois, em maio, eu tive o privilégio de poder conhecer pessoalmente uma das minhas ídolas, Chantal Montellier, que veio ao Brasil para participar da Semana Internacional de Quadrinhos, realizada pela ECO/UFRJ, que tem à frente da organização Amaury Fernandes e Octavio Aragão. Eu, particularmente, devo a ela minha inserção no mundo dos quadrinhos franceses, inclusive como autora. Chantal sugeriu meu nome para uma revista especializada em quadrinhos, a Papiers Nickelés e eu passei a ser correspondente da revista.
Eu, Chantal Montellier e Cecília Capuana.
Agora, dia 11 de janeiro de 2018 não apenas reencontrei com Chantal e Cecília, como tive a oportunidade de participar da entrega do Prêmio Artemísa, de 2018. O PRIX ARTEMISIA foi criado em 2007 para premiar os melhores quadrinhos produzidos por mulheres e publicados em francês. Uma forma de reconhecer o talento feminino nos quadrinhos franceses e de dar visibilidade às mulheres que trabalham nesta área. 

Para quem não sabe, o mercado editorial francês é extremamente sexista e a participação feminina ainda é pequena, embora esteja aumentando gradativammente a cada ano. De fato, se as mulheres não são a maioria das produtoras de quadrinhos atualmente figuram como as maiores leitoras sendo, portanto, não apenas justo como necessário o reconhecimento do talento destas artistas. Daí a importância de iniciativas como o Artemísia.


História em Quadrinhos que recebeu o grande prêmio.
O grande prêmio deste ano foi para a espanhola  Lorena Canottiere  por seu álbum Verdad. Uma tocante história que envolve família, sentimentos e guerra. A ilustração do álbum é toda a lápis, singela e muito bonita. A autora é  espanhola e teve seu quadrinho publicado em francês pela editora Ici Même. Acredito que, em meio a tantos quadrinhos feitos por francesas, ter sido a grande vencedora tem um sabor especial e ratifica o fato de que Artemísia é um prêmio que deseja contemplar a todas as artistas, independentemente da nacionalidade. Quem sabe, um dia, não estaremos festejando a premiação de uma brasileira?

Minha edição autografada.
Ainda foram entregues os prêmios de ficção histórica para Julia Billet e Claire Fauvel pelo álbum La Guerre de Catherine; o prêmio humor para Aude Picault para o seu álbum Ideal Standard;  e Menção especial da luta feminista de 2018 para Leïla Slimani e Laetitia Coryn pelo seu álbum Paroles de honra e o prêmio de novo talento foi para Cécile Bidault pelo álbum L’Écorce des choses (Ed. Warum), um álbum quase sem diálogos que mostra a vida de uma mulher surda.

Outros álbuns também receberam menções, uma forma de incentivar jovens artistas, que estão ainda dando os primeiros passos na carreira. E jovens mesmo, na faixa dos vinte e poucos anos, com aquela carinha de quem acabou de concluir a faculdade. Foram elas: Leïla Slimani e Laetitia Coryn pelo álbum Paroles d’honneur (Les Arènes BD), menção honrosa "pela luta feminista"; Daria Schmitt pelo desenho do álbum Ornithomaniacs (Casterman); Gwenola Morizur e Fanny Montgermont, pela "qualidade documental" do seu álbum Bleu pétrole (Ed. Bamboo); 

Annie Goetzinger
Além da premiação, houve ainda dois momentos importantes. Um deles foi uma homenagem a Chantal Montellier, uma das idealizadoras do prêmio, que recebeu uma monção honrosa pelo álbum Shelter Market (Les Impressions Nouvelles). O outro foi uma emocionante homenagem a quadrinista quadrinista Annie Goetzinger, que faleceu no dia 20 de dezembro de 2017.

Minhas impressões sobre a premiação foram muitas, ainda mais depois de folhear e adquirir dois dos álbuns vencedores (infelizmente não tive como comprar todos). As temáticas foram as mais diversas assim como variou a arte de cada álbum, mas todos possuem uma coisa em comum: uma narrativa de qualidade. 

Mas como eu posso saber disso se acabei de mencionar que apenas folheei os álbuns? Acontece que, durante a entrega dos prêmios, um membro do juri faz um comentário sobre a obra premiada. Mesmo com meu francês limitado deu para perceber a preocupação em buscar temáticas mais densas, que passaram por memórias de guerra à questões ambientais. Também se valorizou a narrativa fluida, elegante, outra marca registrada das obras premiadas.

Enfim, ir à entrega do Prêmio Artemísia foi importante em vários sentidos mas, especialmente, pelo estímulo a mais em querer conhecer essas artistas extraordinárias, suas obras e sua história de vida. Afinal, todas travaram batalhas para poder chegar onde estão.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

AS DEZ POSTAGENS MAIS VISITADAS DE 2017


Como manda a tradição do Blog, todo final de ano eu coloco aqui, depois do Natal, uma lista com as 10 postagens que fizeram mais sucesso durante o ano. Para a minha surpresa não teve nenhuma postagem especificamente sobre educação e história local este ano. Destacaram-se as postagens sobre viagens e sobre quadrinhos. Aparentemente a tendência de 2017 foram postagens voltadas para quadrinhos. Os relatos de viagens, em parte, tem, algo a ver com o tema, também, porque em todos os lugares que fui encontrei com pessoas que trabalham no ramo. Vamos ver como vai ser em 2018. Vamos conferir o TOP 10 de 2017

1) A OLÍVIA PALITO QUE POUCA GENTE CONHECE - texto sobre a personagem Olívia Palito: 2242 visualizações. 
2) AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E A ESCOLA: FINALMENTE LANÇADO - postagem sobre o lançamento do meu livro: 1059 visualizações.
3) COMEÇAM OS PREPARATIVOS PARA O III ENTRE ASPAS - sobre as inscrições para o encontro da ASPAS que acontece em Leopoldina a cada 2 anos: 1013 visualizações.
4) É POSSÍVEL TRABALHAR APENAS COMO QUADRINISTA? - texto falando sobre a situação dos profissionais que trabalham com quadrinhos na Europa e no Brasil: 1032 visualizações.
5) OS DESAFIOS FINANCEIROS DOS PROFISSIONAIS DOS QUADRINHOS - texto falando sobre a situação dos profissionais que trabalham com quadrinhos na Europa e no Brasil: 916 visualizações.
6) IMPRESSÕES GERAIS SOBRE DO FESTIVAL DE ANGOULÊME - Minhas impressões gerais sobre o Festival de Angoulême, do qual participei pela primeira vez em 2017.
7) DOTTY VIRVELVIND: A SUPER-HEROÍNA SUECA DOS ANOS DE 1940 - texto sobre a primeira super heroína sueca: 899 visualizações.
8) TOMANDO CHOCOLATE NO LOUVRE COM CECÍLIA CAPUANA - sobre meu encontro, em Paris (no Louvre, olha que chique) com a quadrinista italiana, Cecília Capuana: 852 visualizações.
9) NA SUÉCIA, SEM NEVE MAS COM MUITO CALOR HUMANO - sobre a minha rápida aventura na Suécia: 884 visualizações.
10) IV CONCURSO LITERÁRIO DA ALLA - sobre a abertura das inscrições para o concurso literário da Academia Leopoldinense de Letras e Artes: 819 visualizações.

domingo, 24 de dezembro de 2017

PROMOÇÃO: COMO OS QUADRINHOS MUDARAM A MINHA VIDA


Se você é leitor(a) ou professor(a) eu gostaria de conhecer a sua "história com os quadrinhos". Conte para mim sua experiência! Os cinco melhores relatos vão receber um exemplar do meu livro: As Histórias em Quadrinhos e a Escola.

Eis aqui umas regrinhas básicas para quem quiser concorrer:
1 - Envie o relato para o e-mail gibitecacom@gmail.com com o título: "Como os quadrinhos mudaram a minha vida."
2 - Escreva no corpo do e-mail ou envie um doc. (word ou pdf) - não há limite de palavras.
3 - Ao final do texto coloque seu nome completo, seu endereço e as seguintes palavras "Eu (...) autorizo a reprodução do texto acima, redigido e enviado no dia (...).
4 - Estarão concorrendo os relatos enviados entre 26 de dezembro e 10 de fevereiro!

Todos os relatos vão servir de material para o meu próximo projeto sobre quadrinhos e educação. Participe!

sábado, 23 de dezembro de 2017

ANNIE GOETZINGER: MORRE UMA PIONEIRA DOS QUADRINHOS NA FRANÇA (1951-2017)

Annie Goetzinger -  Imagem disponível em: 
http://www.comicsbeat.com/rip-annie-goetzinger/,
capturada em 20 dez. 2017.
A quadrinista Annie Goetzinger nasceu em 18 de agosto de 1951, em Paris, e faleceu no dia 20 de dezembro de 2017, aos 66 anos de idade. Formou-se em arte e designer de moda, em 1971. Sua entrada, no mundo dos quadrinhos veio através das aulas que teve com o desenhista francês Georges Pichard. 

A autora confessou em uma entrevista que, a princípio, sentiu  muita dificuldade em entender a dinâmica entre imagem e narrativa, própria dos quadrinhos. Mas ao final do curso ela superou suas dificuldades e conseguiu produzir uma história em quadrinhos que não apenas lhe rendeu os créditos que precisava como despertou nela o desejo de fazer mais, de se profissionalizar. 

Em pouco tempo, ela já havia publicado trabalhos na Circus, L'Echo des Savanes, Fluide Glacial, Métal Hurlant e na conceituada revista Pilote onde, em 1972, publicou suas primeiras histórias completas. Além de assinar sozinha vários de seus trabalhos, Annie Goetzinger ilustrou vários álbuns em parceria com outros autores. 

Com Víctor Mora, por exemplo, deu forma a heroína mascarada Felina, seu primeiro grande sucesso comercial, cujo primeiro tomo foi publicado pela Glénat, em 1978. Felina era uma versão feminina do Fantasma, cujas aventuras aconteciam no início do século XX  século e que marca a estreia da autora no estilo Art Nouveau, que caracteriza boa parte da sua obra. 

Disponível em: https://www.tebeosfera.com/sagas_y_arcos/felina_1978_mora_goetzinger.html,
capturado em: 23 dez. 2017.
Annie Goetzinger transitou entre ficção, história e biografia. Como artista, uma de suas características era a preocupação com os detalhes, principalmente com das vestimentas,  herdada possivelmente da sua formação em designer de moda. Feminista Annie gostava de contar histórias de mulheres fortes, reais ou fictícias, tendo tido em seus álbuns muitas protagonistas fortes: escritoras, heroínas e até prostitutas.
 
Imagem disponível em: https://www.pinterest.com.au/pin/454300681151440670/,
capturada em 23 de dez. 2017.
Seu primeiro álbum completo, Casque d'Or, publicado em 1976, pela Glénat, que trazia uma narrativa romantizada de Amélie Elie (1878-1933), uma prostituta que viveu na Paris da Belle Époquelhe rendeu dois prêmios durante o Festival Internacional de BD de Angoulême, em 1977, tornando-a uma das raras mulheres a serem premiadas em Angoulême. 

Imagem disponível em: http://imgaram.com/tag/rip, acesso em 23 dez. 2017.
Em 1978 publicou o álbum Aurore, une vie de George Sand, pela Éditions des femmes, onde contava a história Amandine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant, aclamada romancista, cujo comportamento ia contra as regras sociais de seu tempo, que assinava com o pseudônimo de George Sand.
 
Imagem disponível em: https://www.cbr.com/annie-goetzinger-brings-vintage-couture-to-life-in-girl-in-dior/, capturada em 20 dez. 2017.
Em 2015, publicou seu primeiro álbum em inglês, Girl in Dior, conta a história de uma jornalista fictícia, chamada Clara, que faz a cobertura da estreia do estilista Christian Dior, em 1947, momento de ruptura com os padrões de estética que revolucionou o mundo da moda na Europa pós-guerra, sob o olhar de duas mulheres: a protagonista e a autora. Uma obra de história da moda, em quadrinhos.  
 
Imagem disponível em: https://br.pinterest.com/pin/558164947557366859/, capturada em: 23 dez. 2017.
Seu último álbum, Les Apprentissages de Colettefoi lançado em março 2017, pela Dargaud. Outra biografia da escritora francesa Colette (1893-1954), mulher forte que superou diversas dificuldades para se tornar uma autora reconhecida. Annie Goetzinger a descrever, no release da obra, como uma mulher “não convencional” e de “exemplo para todos nós que essa mulher incrivelmente complexa, dotada e determinada.” Em uma carreira de mais de 40 anos foram mais de trinta álbuns, sem contar em trabalhos publicados em revistas e jornais, dentre eles o Le Monde.  


Assim como Claire Bretécher e Chantal Montellier, Annie Goetzinger abriu caminho para que as mulheres ganhassem visibilidade na imprensa ilustrada na França, nos anos de 1970. Um espaço que era praticamente um domínio masculino, mas que foi forçado a reconhecer o talento das mulheres, que ainda hoje lutam pela oportunidade de conquistar reconhecimento na indústria dos quadrinhos franco-belga. 

Fontes consultadas:
ALVERSON, Brigid. Annie Goetzinger Brings Vintage Couture to Life in “Girl in Dior” (2015). Disponível em: https://www.cbr.com/annie-goetzinger-brings-vintage-couture-to-life-in-girl-in-dior/, acesso em 21 de dez. 2017.

ANNIE Goetzinger. Disponível em: https://www.lambiek.net/artists/g/goetzinger.htm, acesso em 21 de dez. 2017.

GIULIANI, Emmanuelle Annie Goetzinger, une mine pour la croix (2017). Disponível em: https://www.la-croix.com/Culture/Annie-Goetzinger-mine-Croix-2017-12-20-1200900969, acesso em 21 de dez. 2017.

HERRIMAN, Kat. Dior in Action (2015). Disponível em: https://www.wmagazine.com/story/christian-dior-anne-goetzinger-book, acesso em 21 de dez. 2017.

NIVEN, Lisa. Dior: The Comic (2015). Disponível em: http://www.vogue.co.uk/article/girl-in-dior-graphic-novel-by-annie-goetzinger, acesso em 21 de dez. 2017.

POTET., Frédéric. La dessinatrice de bande dessinée Annie Goetzinger est morte


RATIER, Gilles. Annie Goetzinger : des premiers pas déjà tout en elegance (2013). Disponível em: http://bdzoom.com/68413/patrimoine/annie-goetzinger-des-premiers-pas-deja-tout-en-elegance%E2%80%A6/ , acesso em 23 de dez. 2017.

domingo, 10 de dezembro de 2017

FRAN HOPPER E OS QUADRINHOS DE AVENTURA DA DÉCADA DE 1940

Fran Hopper - Imagem disponível em: http://www.comicsbeat.com/golden-age-artist-fran-hopper-found-alive/, acesso em 10 dez. 2017.
No dia 29 de novembro de 2017 faleceu Fran Hopper, quadrinista que trabalhou na Fiction House, uma das editoras mais populares dos Estados Unidos, naquele período, responsável pela criação de vários personagens e séries que fizerem muito sucesso nas décadas de 1930 e 1940. Fran Hopper nasceu em Maryland, no dia treze de julho de 1922, mas foi criada em Nova Jersey, juntamente com seus dois irmãos. Fran estudou no Instituto Pratt e começou a trabalhar na Fiction House em 1943. O seu último trabalho foi assinado em 1948. Casou-se com John B Hopper II, em 1944 e teve três filhos. Trocou os quadrinhos pela pintura e pela vida de doméstica.

A trajetória de Fran Hopper é muito parecida com a de muitas outras mulheres que trabalharam na indústria dos quadrinhos na primeira década do século XX. A maioria migrou para a ilustração ou para a pintura, quando não abandonaram completamente essas atividades para se tornarem esposas e mães, salvo algumas exceções.

Na Fiction House, ela fez um pouco de tudo. Desenhou histórias de todos os gêneros: de guerra, policiais, aventuras na selva e ficção científica. Neste último gênero, já com alguns anos de experiência de casa,  ela se destacou. Ela trabalhou com personagens femininas que fizeram sucesso na década de 1940, muitas delas pouco conhecidas do público brasileiro, como  Jane Martin, Glory Forbes, Camilla, Mysta of the Moon e Gale Allen e seu esquadrão de garotas. Todas personagens fortes e aventureiras, bem dentro do espírito da II Guerra Mundial, onde as mulheres empoderadas salvavam o dia. 
Jane Martin, possivelmente sob o traço de Hopper. Em muitos casos não é possivel ter certeza da autoria da ilustração pois nem sempre o crédito era dado ao desenhista, apenas ao argumentista. No caso desta história em quadrinhos, especula-se que ou foi desenhada por Hoppe ou por Ruth Atkinson. 
Wings Comics, Fiction House, n. 51, nov. 1944, p 37.

Jane Martin foi uma personagem criada em 1940, possivelmente por Nick Cardy. Ela era uma enfermeira que atuava no front, enfrentando todo tipo de perigos para salvar soldados estadunidenses. E não ficava só nisso: ela era ainda um excelente piloto de avião, lutadora habilidosa e repórter audaciosa. Suas aventuras foram publicada na Wings Comics # 1-59, 61-111. Jane Martin destacou-se nas mãos de outra artista, Lily Renee, que ilustrou muitas de suas aventuras. 
Glory Forbes, no traço de Fran Hopper.
Ranger Comics. Fiction House, n. 25, out. 1945, p, 14.
Glory Forbes é uma personagem criada em 1942, por Pagsilang Rey Isip. Ela era a filha de um  engenheiro que estava projetando aviões de guerra para os Estados Unidos. Glory foi sequestrada por uma espiã japonesa, Scarlet Crab, que desejava descobrir os planos de seu pai. Glory sofreu lavagem cerebral e foi instruída a matar  o próprio pai. O plano falhou, graças à intervenção de um agente do FBI. Depois disso, Glory passou a lutar contra o crime, abrindo em seguida uma agencia de detetives. Ela era uma habilidosa lutadora de  jiu-jitsu, luta marcial que, aparentemente, todas as heroínas do período dominavam. Suas aventuras foram publicadas nas revistas Rangers of Freedom Comics # 5-7 e Rangers Comics # 8-48. Um detalhe sobre a personagem é que a aparência dela muda em várias histórias. Em umas delas aparece loira, em outras morena. 

Camilla the Queen of the Jungle, no traço de Fran Hopper.
Jungle Comics. Fiction House,  n; 88, abr. 1947, p.43 

Camilla é uma uma garota da selva, uma tarzanide. Sua estreia foi na Jungle Comics # 1 , em  janeiro de 1940, e sua criação é creditada a AC Winter. Ela era a rainha de um império perdido no interior da África. Seu povo era descendente de nórdicos, que se fixaram na selva africana na época das Cruzadas. Eles cultuavam Thor, sua principal divindade, para quem faziam sacrifícios humanos. Camilla e seu povo são quase imortais pois usavam uma fórmula secreta que lhes dava longevidade. Camilla não é uma heroína, de fato. Ela é uma mulher poderosa, apresentada como uma governante tirânica, tomada pela paixão e impulsiva. Ela comete atos cruéis e, como acontece com toda vilã, é punida por eles. 

Num segundo momento, a personagem é completamente reformulada, tornando-se uma típica tarzanide, que vivia na floresta. Camilla, era uma outra versão de Sheena. Foi nesta fase que Fran Hopper desenhou a personagem. Muitos artistas, homens e mulheres desenharam e escreveram as histórias de Camilla, como Marcia Snyder, por exemplo. Suas histórias foram publicadas na Jungle Comics # 1,3-151, na Kaänga Comics # 15 e na Jungle Comics # 9.

Vale observar que personagens eram criados e recriados de acordo com o receptividade do público ou os objetivos da editora. Assim como Camilla teve toda sua origem refeita, a ponto de sobrar apenas o título, o mesmo aconteceu com outras personagens, como Fantomah e War Nurse, criadas naquela mesma época.

Aventura ilustrada por Fran Hopper. Mysta of the Moon.
Planet Comics. Fiction House, n. 35, mar. 1945, p.15

Mysta  of the Moon é uma personagem de ficção científica criada em 1945, por Joe Doolin, que estreou na série Mars. O enredo da série misturava mitologia com futurismo. Ela vive em uma distopia, onde Marte, deus da guerra, havia destruído todas as universidades da Terra para que a humanidade vivesse mergulhada numa era de trevas e ignorância. Seu pai, no entanto, preservou todo o conhecimento da humanidade e o repassou para seus dois filhos, Mysta e Nors, com quem se refugiou em um laboratório na Lua. Ela luta contra Marte e o derrota, mas o preço para isso é a vida do seu irmão. 

Mysta cria um grupo chamado Safety Council (Conselho de Segurança), uma organização formada para tentar reverter os danos causados por Marte e restaurar o conhecimento para a Terra. Ela retorna para a terra e assume uma identidade secreta: Ana Thane, técnica do Conselho de Segurança. Suas aventuras foram publicadas na Planet Comics # 35-62. Sua última aparição foi em 1949, embora algumas de suas histórias tenham sido republicadas, a personagem não teve uma vida longa nos quadrinhos. Mike Madri cita Fran Hopper como a principal artista que desenhou a personagem. 
Aventura de Gale Allen, ilustrada por Hopper.
Planet Comics. Fiction House, n. 36, mai. 1945, p.25
Gale Allen é outra personagem de ficção científica desenhada por Hopper. Ela foi criada em 1940, possivelmente por RA Burley. Gale Allen era uma princesa venusiana, descendente direta do rei Rogert, que foi o primeiro humano a chegar em Vênus. Gale tornou-se capitã da Patrulha Universal do Espaço, e viajou por toda a galáxia combatendo o crime e lutando contra a injustiça. Ela coordenava o 40º Batalhão do Espaço para Mulheres, ou "Esquadrão das garotas", como era chamado. Ela queria provar ( e provou) que as mulheres também poderiam ser grandes guerreiras. Seu arqui-inimigo era o príncipe Blaga Daru, um conquistador que tentou dominar a terra . Além de uma excelente piloto, a princesa era uma grande lutadora. Suas aventuras foram publicadas na Planet Comics # 4-6, 8-42, 65-70. 

Embora não tenha criado nenhuma dessas personagens, Hopper deu forma a elas. Sua trajetória no mundo dos quadrinhos pode ter sido relativamente curta (cinco anos), mas durante muito tempo ela ainda manteve contato com outros artistas em atividade. Sua participação na produção de histórias em quadrinhos é hoje reconhecida graças ao trabalho de pesquisadores e pesquisadoras como Trina Robbins e Mike Madri, que trouxe à luz nomes como o de Fran Hopper, Lily Renee, Tarpé Mills e tantas outras desenhistas, coloristas, argumentistas e editoras que foram esquecidas pela história mas que têm ganhado, atualmente, as páginas de livros, revistas e jornais. 

Fontes consultadas:

Camilla. Public Domain Super Heroes. Disponível em: http://pdsh.wikia.com/wiki/Camilla_(1), acesso em 10 dez. 2017.

Comic Book Plus. Disponível em: http://comicbookplus.com/?cid=1507,  acesso em 10 dez. 2017.

Gale Allen. Public Domain Super Heroes. Disponível em:  http://pdsh.wikia.com/wiki/Gale_Allen, acesso em 10 dez. 2017

Glory Forbes. Public Domain Super HeroesDisponível em: http://pdsh.wikia.com/wiki/Glory_Forbes, acesso em 10 dez. 2017.

Jane Martin. Public Domain Super Heroes. Disponível em: 
http://pdsh.wikia.com/wiki/Jane_Martin, acesso em 10 dez. 2017. 

MADRID, Mike. Divas, Damages & Daredevils: lost heroines of Golden Age. [Minneapolis?]: Exterminating Angel Press, 2013.

Mysta of the Moon. Public Domain Super Heroes. Disponível em: http://pdsh.wikia.com/wiki/Mysta_of_the_Moon, acesso em 10 dez. 2017.

Mysta of the Moon. Disponível em: http://www.toonopedia.com/mysta.htm, acesso em: acesso em 10 dez. 2017. 


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

THE PUNISHER: UMA BREVE RESENHA

The Punisher, anti-herói da Marvel, criado pelo escritor Gerry Conway e pelos artistas Ross Andru e John Romita, Sr., em  1974. Sua estreia foi em uma revista do Homem Aranha. 
Assisti durante a semana a uma série de TV baseada nos quadrinhos da Marvel produzida pela Netflix, O Justiceiro (The Punisher). O Justiceiro é um homem mentalmente perturbado, atormentado pela morte da família e que quer vingá-la a todo custo. Nos quadrinhos essa vingança nunca termina.

O estilo "justiceiro implacável" é algo bem típico da cultura estadunidense, característicamente espartana. Atores como Charles Bronson e Clint Eastwood, ganharam fama com filmes regados a violência. Quentin Tarantino fez um enorme sucesso com Kill Bill. A lista de filmes regados à vingança como forma de justiça é enorme e a de quadrinhos, também.

Filmes violentos só me deixam impactada se eles possuírem uma boa carga dramática. Depois de assistir a adaptações anteriores de “O Justiceiro” eu fiquei surpresa com minha reação à série. Mais surpresa ainda de estar aqui, fazendo uma breve resenha sobre ela.

Eu gostei da forma como a série explorou a parte psicológica do personagem. Ela traz um Frank Castle perturbado, um homem perdido em uma dor tão profunda que só consegue sentir alívio sendo violento. Mas a violência é um vício cuja satisfação é passageira, então, Castle na verdade quer se libertar dela. O ator, Jon Bernthal, foi que melhor caracterizou Frank Castle até hoje, na minha modesta opinião.

 Jon Bernthal, caracterizado como o personagem
É uma série recomendada para público adulto, mas, certamente, muitos adolescentes vão assistir. Já ouvi até alguns comentários entre eles. Com o acesso fácil que se tem hoje a todo tipo de informação, não adianta proibir. Isso só vai servir para estimular ainda mais a curiosidade da garotada. O ideal é esclarecer que se trata de uma obra de ficção, que não retrata e nem deve retratar a vida real e que não deve ser utilizada como pretexto para se fazer apologia a ações violentas. Uma boa conversa pode funcionar melhor do que uma proibição.

Particularmente, eu não acho que um filme ou uma história em quadrinhos tenha poder de mudar a índole de uma pessoa. O público dialoga com a obra televisiva ou cinematográfica a partir dos valores e ideias que já estão interiorizadas. Opinião não se forma do nada. Pessoas com propensão à violência vão reproduzir violência em qualquer situação e o gatilho pode ser qualquer coisa, até mesmo um esbarrão se leva na rua.

De forma geral, eu classificaria “O Justiceiro” como uma boa série, para adultos, uma das melhores deste ano no estilo, produzida pela Netflix.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A MANIPULAÇÃO DA MEMÓRIA

Mnemosine era a deusa grega da memória, era filha de Gaia e Urano. Com Zeus teve nove filhas: as Musas. Era uma das deusas mais importantes pois para os gregos a preservação da memória iria eternizá-los. O esquecimento das tristezas ficavam por conta de Lethe ou Lesmosyne,  a deusa do esquecimento. Na pintura está uma representação de Mnemosine e as Musas.

No início da República ocorreu uma polêmica envolvendo o jurista Rui Barbosa que, quando Ministro da Fazenda durante o governo de Deodoro da Fonseca, teria ordenado a queima em praça pública dos arquivos da escravidão, em 1889. Arquivos estes que continham os nomes e informações de escravos e de quilombos.

Defensores de Rui Barbosa contestam o fato, e afirmam que o jurista não ordenou tal ação. Eles podem até estar certos e talvez Rui Barbosa tenha sido tão vitima quando os ditos arquivos, cujas cinzas foram carregadas pelo vento. Mas é fato que muitos arquivos sobre a escravidão se perderam após o a abolição e com eles muitos indivíduos também perderam sua identidade.  Os anos que se seguiram ao fim da escravidão foram de reconstrução desta identidade.

Muitos ex-escravos devem ter sentido o choque de estar em uma sociedade que não se definia mais pelo fato de ser ou não livre. Perdidos neste novo mundo muitos deles ficaram entrincheirados entre passado e futuro. Para o mais românticos um recomeço, a chance de uma nova vida longe das senzalas e das chibatas. Para os mais céticos trocava-se um passado de trabalho e sofrimento por um futuro marcada pelo preconceito e a exclusão.

Tal reflexão trouxe-se à mente um poema da escritora e poetiza Carolina Maria de Jesus, que sintetiza a situação do negro, mais de meio século após a abolição

MUITAS FUGIAM AO ME VER

Muitas fugiam ao me ver
Pensando que eu não percebia
Outras pediam pra ler
Os versos que eu escrevia

Era papel que eu catava
Para custear o meu viver
E no lixo eu encontrava livros para ler
Quantas coisas eu quiz fazer
Fui tolhida pelo preconceito
Se eu extinguir quero renascer
Num país que predomina o preto

Adeus! Adeus, eu vou morrer!
E deixo esses versos ao meu país
Se é que temos o direito de renascer
Quero um lugar, onde o preto é feliz.

Carolina Maria de Jesus, em Antologia pessoal. (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.

Mais do que isso, a ideia de apagar a escravidão da memória nacional, a queima de arquivos, aponta para uma tendência: a pouca ou quase nenhuma preocupação com a preservação, seja do patrimônio cultural, seja da informação produzida ao longo dos anos. O Brasil não tem uma tradição de preservação da memória. De fato, parece que estamos fadados a optar muitas vezes pelo esquecimento.

Paul Ricoeur chama a atenção para os abusos advindos da manipulação da memória e do esquecimento pelos detentores do poder. A memória manipulada leva à fragilização da identidade coletiva. No processo de colonização da memória são escolhidos os monumentos que devemos preservar, os heróis que devemos honrar e informação que devemos esquecer.

A escravidão, ditadura e movimentos populares são alguns dos temas que são constantemente ameaçados pelo esquecimento. Exalta-se a bravura de Palmares e se esconde a exclusão do negro da sociedade. Por várias décadas, por exemplo, foi tabu falar sobre a Revolta da Chibata, movimento ocorrido dentro da Marinha brasileira, liderada por negros e mulatos, como João Cândido. Aqueles que tentaram tirar das sombras a memória da revolta foram duramente reprimidos. Foi preciso quase um século para que a Marinha brasileira reconhecesse a importância do movimento.

Ao longo da nossa história centenas de milhares de brasileiros foram massacrados por forças oficiais por terem se levantando contra a exploração e a miséria. A memória manipulada construiu uma história, contatada e recontada ao longo do século XX, onde estes cidadãos foram tratados como párias, loucos ou fanáticos e seus algozes como heróis. O que não pode ser esquecido é manipulado.

Somos por vezes forçados ao esquecimento e quando isso não é possível cria-se uma memória manipulada que produz uma identidade fragilizada, onde os significados se perdem, assim como se perde a nossa capacidade de questionar, dialogar, de reconhecer o valor da nossa herança, seja ela intelectual ou cultural.

Agora, no tempo presente, a manipulação da memória nunca foi tão intensa. São constantemente relatados casos de professores hostilizados impedidos de debater sobre temas como tortura e o autoritarismo. Já foram flagrados descartes irregulares de arquivos da ditadura, com o objeto de se encobrir o passado, de apagar a memória e de se impedir a construção de uma história não manipulada. Até Paulo Freire tem sido vítima desse processo: querem lhe tirar o título de Patrono da Educação Brasileira, excluindo da história a memória do filósofo e educador que tano lutou por uma escola inclusiva e de qualidade.


O tempo se torna inimigo da memória e da história uma vez que nosso passado está constantemente ameaçado pelo esquecimento, nosso presente marcado pela manipulação e as projeções para o futuro cada vez mais incertas e voláteis.

domingo, 5 de novembro de 2017

SÓ TEM UM JEITO DE RESOLVER O PROBLEMA DA EDUCAÇÃO NO BRASIL: INVESTIR NO PROFESSOR

Que me desculpem os economistas, mas crise econômica não é desculpa para diminuir o investimento em educação, pelo contrário: é aí que se deve investir mesmo. Investir na formação de bons professores, que vão formar os bons profissionais que irão um dia tirar  o Brasil da triste sina de ser um país que promete tanto, mas que nunca consegue dar um passo a frente sem dar dois atrás. 

Conversando com um amigo, que é professor de educação infantil, sobre a questão do investimento na educação eu acabei tirando o dia para refletir sobre o investimento que se faz na educação no Brasil.

Ele é brasileiro e mora num país onde se investe muito na educação (segundo ele 44% do PIB) e onde há uma grande demanda por professores e, portanto, oportunidade para estrangeiros trabalharem em docência. Ele está trabalhando em uma escola recém-inaugurada, com toda a infraestrutura necessária, e me disse que, ainda ano que vem, será aberta outra escola e serão contratados pelo menos mais 20 profissionais do ensino. 

Ele está fazendo mestrado e nos dias que precisa se ausentar para ir à universidade fazer as disciplinas, a escola o libera. Ele não precisa tirar licença porque sua carga horária não é excessiva, o que permite que ele estude e trabalhe. Eu poderia dizer mais coisas, que deixariam muitos dos meus colegas ansiosos para perguntar: “Que país é esse?”. Eu, da minha parte, responderia: “Não é o Brasil!”.

Eu tenho por convicção que um país se define como desenvolvido na medida em que investe em professores. E não é preciso muito. Um bom salário, uma carga horária compatível com seu trabalho, o incentivo e o investimento na formação, da graduação à pós-graduação.

Só vamos resolver o problema da educação se investirmos no professor. E não estou dizendo isso baseada em “achismos”. Eu procurei me informar.  A Finlândia, por exemplo, tem o seu sistema de educação reconhecido por ser o mais eficiente e qualificado do mundo. Lá de investe cerca de 50% do PIB em educação. Mas não foi sempre assim. Há cerca de 40 anos o sistema de ensino lá era caótico. O que se fez? Investimento, principalmente na formação de professores.

 

Então o Brasil não investe em educação? Sim, investimos, mas o dinheiro é muito mais direcionado aos recursos materiais do que humanos. Investimos bilhões, mas as universidades estão sucateadas. Investimos em computadores que não são usados, em laboratórios que ficam fechados porque não se contrata técnicos, em bibliotecas onde não há bibliotecários, mas não investimos nos profissionais do ensino.

 

No período da Ditadura Militar, o governo promoveu o arrocho salarial, rebaixando o salário mínimo para atrair empresas estrangeiras. Afinal, quem não quer mão de obra barata? E isso é cultural. No Brasil, um país com profundas raízes escravistas, o trabalhador tem que ser barato. E isso se aplica também ao professor.

 

Muitos pais talvez não entendam, mas para garantir que seus filhos tenham uma educação de qualidade não é necessário computadores ou celulares modernos, mas profissionais bem preparados e motivados. Um salário justo, uma carga horária moderada e investimento na formação. Há ilhas de excelência no Brasil, que mostram que essa receita é infalível. Municípios que reformaram o sistema de ensino e que fazem a Finlândia parecer estar aí ao lado.

 

Então, me desculpem os gestores, mas não dá pra ter qualidade em educação sem investir no professor.

 

Que tal ao invés de reuniões cansativas que prolongam a jornada diária de trabalho e desgastam os profissionais das escolas, não se investe em qualificação? Por que não reduzir a carga horária e permitir que o professor tenha tempo para planejar suas aulas e se aperfeiçoar?

 

No Brasil gosta-se muito de imitar o que outros países fazem. Então, fica aqui a dica: imitem investindo no professor.