terça-feira, 29 de novembro de 2016

LIVRO COMEMORATIVO DOS 10 ANOS DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA DA UNIVERSO

O Programa de Pós-graduação em História do Brasil da Universidade Salgado de Oliveira (PPGHB – Universo) foi implantado em 2006, em Niterói (RJ). Dele fizeram parte inicialmente historiadores como  Maria Yedda Leite Linhares, Francisco José Calazans Falcon, Marly Vianna, Lincoln Penna, Jorge Prata de Sousa, Marcia Amantino e Célia Maria Loureiro Muniz. Mais tarde se juntaram ao corpo docente as historiadoras Cláudia Rodrigues e Mary del Priore. Atualmente o programa conseguiu a aprovação do doutorado, que deve se implantado em breve.

A fim de comemorar seus 10 anos, o PPGHB da Universo pediu a seus ex-alunos que escrevessem um capítulo para um e-book, onde apresentassem resumidamente os temas que abordaram em suas pesquisas. O lançamento do e-book ocorreu esta semana. Ele pode ser acessado clicando aqui!

Como ex-aluna do  PPGHB, eu posso afirmar que a qualidade do curso, de seus professores especialmente, assim como sua estrutura me permitiram realizar o mestrado que eu sempre desejei, trabalhando um tema pelo qual sou apaixonada. Celebro os 10 anos do PPGHB como quem celebra o aniversário de um parente  ou amigo querido. Que venham mais 10 anos.

domingo, 20 de novembro de 2016

QUADRINHOS SUECOS: CIDADE DOS CROCODILOS

Não me considero exatamente uma pessoa qualificada para fazer a análise artística de uma obra em quadrinhos. Mas, como consumidora de cultura e com base em uma experiência sensorial e emocional eu sou capaz de construir minha própria definição de beleza. Neste ponto, eu sou muito eclética. Gosto de clássicos da mesma forma que gosto de traços inovadores, que foi a impressão que me deixaram, num primeiro instante, os quadrinhos do sueco Knut Larsson. 

No caso específico, a História em Quadrinhos Cidade do Crocodilo (City of crocodiles), editada pela www.eletrocomics.com, em 2012. O álbum narra as aventuras de um caçador de crocodilos em um mundo distópico e pós-apocalíptico.


Larsson iniciou a sua carreira em 1996 na revista Galago # 45. A Galago foi fundada em 1979 e tornou-se um fórum para cartunistas e artistas suecos. De lá pra cá o autor contribuiu com várias outras revistas, publicou álbuns de quadrinhos e expôs seus trabalhos em galerias da Suécia e outros países europeus. Seus quadrinhos e suas ilustrações têm como principal marca o estilo surrealista e filosófico. Em Cidade dos Crocodilos isso é muito evidente. 

São centenas de quadros que apresentam uma narrativa sequencial perfeita sem o uso de nenhuma palavra. Sim, é um álbum de quadrinhos onde não há diálogos, recordatórios e nem mesmo onomatopeias. No máximo, o letreiro de um estabelecimento comercial. É o que eu chamo de uma narrativa universal, onde qualquer pessoa, em qualquer idioma pode traduzir as imagens e mergulhar na história. 


Mas não é tão simples assim. A leitura de imagens pode ser muito mais complicada do que a de palavras. É preciso que o leitor esteja familiarizado com a linguagem dos quadrinhos. Cidade dos Crocodilos tem um "quê" de existencialista e, em muitas passagens, leva o leitor a fazer reflexões. É um quadrinho para adultos que fala de sentimentos e envolve dramas psicológicos.

Enfim, foi um leitura agradável, envolvente e um bom exemplo de criatividade e talento artístico. Quem sabe, futuramente, materiais como este possam vir a ser publicados no Brasil?

sábado, 19 de novembro de 2016

SOBRE QUADRINHOS NA SUÉCIA

Tira de Malin Biller.
Uma das melhores descobertas que fiz este ano foram os quadrinhos suecos. Eu tenho uma atração irresistível pela História das Histórias em Quadrinhos no mundo. Acho essencial conhecer o percurso desta mídia em outros países, justamente para poder ter uma visão mais ampla do que são e foram as HQs aqui no Brasil.

Por isso, no meu mestrado, eu estudei os quadrinhos nos Estados Unidos, pela mesma razão eu estudo atualmente os quadrinhos na França. Acho importante ter com o que comparar tanto a nossa produção nacional, assim como a trajetória de vida dos nossos (as) quadrinistas. Particularidades a parte, há muito mais em comum entre eles do que muita gente imagina.

Om någon vrålar i skogen
(Se alguém grita na floresta)
Ontem, por exemplo, tive a oportunidade de conhecer os quadrinhos de Malin Biller, uma talentosa, e muito simpática, quadrinista sueca. Como muitas quadrinistas da atualidade, começou produzindo fanzines e acabou conquistando o grande público com suas tiras bem humoradas. Possui um estilo eclético, produzindo desde quadrinhos infantis a humor pastelão.  Em 2011 ganhou o prêmio de melhor História em Quadrinhos sueca com Om någon vrålar i skogen (Se alguém grita na floresta), uma História em Quadrinhos autobiográfica onde narra o drama de crescer com um pai alcoólatra e abusivo.  

Capa de City of Crocodiles
(Cidade dos Crocodilos), de Knut Larsson.
Outro quadrinista sueco, Knut Larsson, com quem conversei recentemente, também possui um trabalho excelente, que nada deixa a desejar aos quadrinhos franco-belgas. Aliás, sua obra já foi exposta em outros países, inclusive na cidade de Angoulême, na França, onde acontece um dos mais importantes festivais de quadrinhos do mundo, o Festival de Angoulême. Pois é, Histórias em Quadrinhos também têm ganhado espaço nas galerias, no mundo todo. E não apenas em galerias especializadas, afinal, os quadrinho são uma arte, como tantas outras.

Tem ainda Pidde Andersson, jornalista, quadrinista, crítico
Edição de Åsa-Nisse de 2013
de cinema e membro da Academia Sueca de Quadrinhos. Atualmente ele é roteirista de 91:AN (clique aqui para saber mais) e de Åsa-Nisse, uma série de quadrinhos de humor, criada originalmente em 1944. Andersson também trabalhou na série Bamse (clique aqui para conhecer). 
Conversando com Andersson eu descobri que as principais editoras estão em Malmö e Estocolmo. Há ainda a Associação de Quadrinhos (Seriefrämjandet) e sua escola de quadrinhos localizam em Malmö, cidade que, ao que parecem é  o centro nervoso da produção de quadrinhos na Suécia.

O fato é que quanto mais conheço mais me interesso em conhecer quadrinhos suecos. Acho que, futuramente terei que aprender o idioma. Enquanto isso não acontece vou me virando com suas versões em francês e inglês e, claro, apelando para o Google Tradutor.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

ACADEMIA JOVEM DE LETRAS E ARTES DE LEOPOLDINA: UM RETRATO DO JOVEM BRASILEIRO

Premiados do Concurso Literário da ALLA - junho/2016
A primeira formação da Academia Jovem de Letras e Artes de Leopoldina tomou posse no dia 25 de agosto de 2016, numa cerimônia realizada no auditório do CEFET - Leopoldina. Ocuparam as sete cadeiras os primeiros colocados do Concurso Literário da Academia Leopoldinense de Letras de 2016. De lá para cá os jovens acadêmicos têm se mostrado os membros mais ativos da ALLA, com reuniões mensais, participando e organizando eventos.

Eles podem ser encontrados todos os meses, aos sábados, no Museu Espaço dos Anjos, onde é realizado um sarau, com música, leitura de contos e declamação de poesias. Eles também organizaram recentemente uma campanha para coleta de livros, a serem entregues a instituições que acolhem jovens e crianças. Este é um retrato da nossa ALLA Jovem, inspirada na Academia Jovem de Letras de Lavras.

É também o retrato de uma nova geração muitas vezes rotulada justamente pela sua falta de sensibilidade cultural. Estes rapazes e moças gostam de funk, mas também ouvem outros tipos de musica. Eles usam celulares freneticamente e tiram selfs, mas também leem e escrevem poesias. Eles têm metas, projetos, são curiosos e inventivos.  Alguns deles já colecionam prêmios e medalhas sem nem ainda terem deixado o Ensino Fundamental. Eles vêm de religiões diferentes e nem por isso são intolerantes.
 
Posse dos Membros da Academia Jovem de Letras da ALLA - Agosto/2016.
O retrato da ALLA Jovem é o retrato de uma significativa parcela dos jovens brasileiros que, incentivados a ler, a participar, a falar o que pensam, estão construindo os alicerces políticos e culturais do nosso país. Não consigo pensar neles e não lembrar também nos jovens que ocupam escolas e defendem a educação pública em todo o Brasil. Não consigo não pensar na forma como temos banalizado a nossa juventude, rotulando-a muitas vezes de vazia e alienada.

Sim, há muitos jovens assim, que vivem num mundo a parte, longe da realidade. Mas creio eu que isso é resultado da falta de oportunidade de conhecer coisas novas, de interagir com outras pessoas e frequentar outros ambientes. Lembro-me de um episodio em que fui com alunos do 7º ano a uma exposição cultural e, por acaso, pegamos o em ensaio de um grupo de musica antiga. Não esqueço a expressão extasiada da maioria deles que nunca tinha ouvido canto gregoriano. Algo novo, que encantou a todos, que levou a perguntas e estimulou a curiosidade.
 
Sarau de Poesias no Museu Espaço dos Anjos (Leopoldina - MG) - Outubro/2016.
Algumas pessoas dizem que a “cultura” é monopolizada pela elite. Eu digo que a elite possivelmente é mais aculturada do que a maioria de nós. Ela possui os meios e acesso, mas nem sempre faz o uso. Ademais, o conceito de cultura é muito mais amplo e transgride o espaço das galerias e dos teatros. Ela está nas rodas de capoeira, nos grupos de dança formados nas periferias, nos saraus de poesia que ocorrem num pequeno museu do interior de Minas Gerais. A cultura está em todo lugar e ela pode e deve ser apropriada por todos, independentemente da idade, da origem social e econômica.


E esta apropriação da cultura é a cara da ALLA Jovem, que reúne justamente isso: jovens de todas as idades, de origens sociais diversas e com a sua própria carga de experiências que aprendem uns com os outros e que desejam compartilhar o prazer de cada nova descoberta. É o retrato inacabado de uma juventude que emerge em tempos turbulentos e que pode sem, mudar o mundo.

domingo, 6 de novembro de 2016

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A AVALIAÇÃO DO ENEM DE 2016

Este ano eu retornei, depois de muito tempo, ao 3º ano do Ensino Médio. Basicamente, quando parei de dar aulas para o 3º Ano o MEC ainda nem tinha criado o Programa Universidade para Todos (PROUNI) e o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) ainda não era vinculando a concessão de vagas em universidades públicas.  Sendo assim, analisar uma prova inteira do ENEM é uma novidade e um desafio para mim.

Pois bem. A prova de Ciências Humanas e suas Tecnologias (caderno branco) envolve questões de História, Filosofia, Sociologia e Geografia. Vou tentar dar uma opinião geral sobre ela, embora eu pretenda dar mais atenção às questões de História.

Vou começar com alguns aspectos que eu considero positivos. A questão 03 que usa a História em Quadrinhos (HQ) de Marjane Satrapi, “Persépolis”, foi bem formulada. A questão teve estrutura simples e, ao mesmo tempo, complexa. Os quadrinhos, quando bem utilizados, podem enriquecer atividades e trazer provocações. Pena que em 45 questões, apenas uma utilizou este recurso.

Senti falta do uso de charges, presentes em avaliações anteriores. Aliás, usaram-se em 45 questões poucas imagens (e não estou contando aqui gráficos e mapas): uma HQ, algumas reproduções de pinturas, fotos e anúncios. Mas é uma questão pessoal. Acho que a leitura de imagens precisa ser mais explorada. Não estou desqualificando a avaliação por conta disso.

Com relação às questões de História, achei que foram bem distribuídas, abarcando vários períodos sem privilegiar um em específico. Mas senti falta de questões referentes ao Império.  No geral, eu diria que o nível das questões estava bom, mas achei o vocabulário um tanto rebuscado. Por exemplo, na questão 33, a alternativa (c) trazia a opção “ordenar conflitos laborais” onde poderia ser “ordenar conflitos trabalhistas”. Suponho que muitos estudantes erraram esta questão simplesmente porque não sabiam o significado de “laboral”, termo que, na minha experiência de mais de 20 anos em sala de aula, não costuma ser usado nem mesmo em livros didáticos.

Foi uma avaliação que privilegiou a interpretação. Eu acho isso positivo. Mas nas questões de Filosofia e Sociologia achei que se abusou um pouco de termos acadêmicos, de autores que são desconhecidos até para professores do Ensino Médio. Vejam bem, nem todo professor de Humanas tem oportunidade de fazer um mestrado ou um doutorado, de se aprofundar em alguns estudos, em alguns autores. A maioria nem é estimulada a isso. Quanto mais formação, mais caro fica o professor e, por exemplo, em algumas escolas particulares, a pós-graduação não oferece vantagens financeiras aos docentes, que acabam se limitando a uma especialização simples. 

Minha maior crítica à avaliação do ENEM é a seguinte: utiliza-se em muitas questões um vocabulário que não condiz com a realidade dos nossos alunos e mesmo dos professores da Educação Básica.

Minha posição como professora, com experiência em escola particular e pública, é que o estudante demonstra seu conhecimento, suas habilidades, quando consegue entender o que a questão demanda. Daí eu achar importante que as provas cobrem interpretação. Mas se ele se depara com alternativas que utilizam um vocabulário muito acima da capacidade geral de entendimento de um aluno do Ensino Médio, eu me pergunto: qual é o objetivo desta avaliação?

Avaliar conhecimento, ou excluir aqueles que ainda não são dotados de maturidade e experiência necessárias para compreender um vocabulário completamente ausente na sua prática diária?

Como professora de História, eu diria que foi uma prova razoável e que não cobrou muito acima da capacidade dos alunos. No entanto, eu questiono como isso foi cobrado na questão da linguagem utilizada para avaliar o aluno. Passou-me a impressão de que o MEC não conhece a realidade da escola brasileira, do estudante brasileiro. Isso me assusta, ainda mais em tempos de reforma do Ensino Médio.

sábado, 5 de novembro de 2016

VII FESTIVAL DE ARTE E CULTURA DO CEFET


A cada ano nossa cidade tem avançado mais na área da cultura. Faça sua parte prestigiando os eventos que acontecem na cidade. Além da Semana Anjosiana temos ainda VII Festival de Arte e Cultura do CEFET! Não percam!


SEMANA ANJOSIANA 2016


Esta semana será dedicada ao poeta paraibano Augusto dos Anjos, que viveu e morreu em Leopoldina (MG). Já é uma tradição cultural da cidade! Participem!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O LEOPOLDINENSE: APONTAMENTOS SOBRE A ESCRAVIDÃO

Imagem disponível em: http://www.geledes.org.br/anuncios-de-escravos-os-classificados-da-epoca/#gs.6k5kNyQ, acesso em 28 out. 2016.
A Zona da Mata de Minas Gerais foi uma das principais áreas de produção de café do país e, também, uma região com uma grande concentração de escravos.  Município cafeeiro próspero era de se esperar que em Leopoldina o número de cativos fosse elevado. Segundo censo realizado em 1872, a população do município era de 41.886 habitantes, dos quais 15.253 eram escravos: um dos maiores plantéis de escravos da Zona da Mata.[1] Portanto, a escravidão é uma parte importante da nossa história e ajuda a entender nossa formação social.

Lendo o jornal O Leopoldinense, podemos encontrar em suas páginas diversas passagens que nos falam sobre a escravidão em Leopoldina e em outros municípios da Zona da Mata.  Estes relatos nos permitem ter uma noção de como era a vida dos escravos e das formas de resistência encontradas por eles para externarem sua insatisfação com o cativeiro.

As notícias mais recorrentes sobre escravos no Leopoldinense estão ligadas justamente a isso: a resistência. São os anúncios de fugas de escravos, oferecendo recompensas para a captura dos mesmos. Há casos em que, num mesmo jornal, três ou mais apareciam. As recompensas variam de acordo com o sexo e a idade. Nos periódicos analisados encontramos valores entre 50$000 e 500$000[2]. Escravos mais velhos, com mais de 40 anos, eram os que tinham recompensas de menor valor.

Veja um exemplo de anúncio de escravo fugido, do dia 15 de maio de 1881. O autor é Joaquim Gonçalves de Azevedo, residente em Palma. Ele denuncia a fuga de dois escravos jovens.
O Leopoldinense. Leopoldina, 15 de maio de 1881, n. 35, p, 04. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Nem sempre se fugia sozinho e, em alguns casos, a fuga de um escravo era seguida da de outros. Foi o caso da Fazenda Morro Alto, de providência, de propriedade do tenente-coronel José Maria Manso da Costa Reis, de onde fugiram em um espaço de apenas oito dias três escravos. Um deles, tinha 55 anos. Oferecia pela captura de cada um a quantia de 50$000. [3]

E havia ainda as reincidências: escravos que fugiam por mais de uma vez, da mesma fazenda.
O Leopoldinense. Leopoldina, 29 de maio de 1881, n. 39, p, 04. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Nos anúncios os escravos eram descritos destacando-se suas características físicas: o tamanho do nariz, o formato do rosto, algum defeito físico ou trejeito característico. Detalhe para o fato de que nem sempre se divulgava o valor da recompensa. 

Mas havia a consciência de que a escravidão era uma prática que tinha seus dias contatos. Na coluna “Questão do Dia”, de dia 7 de julho de 1881, o tema era a imigração. O jornal alertava quanto à escassez de mão de obra escrava e aconselhava os fazendeiros a adotarem o trabalho livre.

“Ao escravo que vai desaparecendo devemos substituir a imigração. Quanto a isso concordam as opiniões, divergem, porém, quanto aos meios práticos de levá-lo a efeito”[4].

Este era de fato o problema: como a mudança? Como se adaptar ao trabalhador livre? 

À medida que os debates acerca da abolição iam se ampliando e com a promulgação das primeiras leis abolicionistas, alguns fazendeiros foram substituindo, aos poucos, o escravo pelo imigrante. Mas muitos protelaram a decisão e acabaram amargando prejuízos quando, em 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea.

A venda de escravos também era anunciada no jornal. Por exemplo, o Leopoldinense de 15 de maio de 1881 avisa sobre a chegada de um lote de 80 escravos de "ambos os sexos, bonitas figuras" a um bom preço [5]. Preço, aliás, que não era divulgado, o que deixava a entender que poderia haver abertura para negociação entre vendedor e compradores. Anunciava-se, também, a venda unitária de escravos. Veja um exemplo. 


O Leopoldinense. Leopoldina, 15 de maio de 1881, n. 35, p, 04. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Mas quanto valia um escravo? No final do período escravista, depois do fim do tráfico de escravos, estabelecido pela Lei Eusébio de Queirós, em 1850, o valor de mercado do escravo aumentou. Havia muita procura e pouca oferta do produto, por assim dizer. 

Pelos dados que encontramos em artigos e textos variados sobre o assunto, o valor do escravo homem, jovem, poderia variar de 1:500$000 a 800$000. Há casos, no entanto, em que um escravo pode ser adquirido por 200$000. As variações são muitas. Mas, certamente, não era um produto barato. Em 1860 1:000$000 (um conto de réis[6]) correspondia a um quilo de ouro[7]. Quem quiser ter uma ideia aproximada do valor de um escravo (em reais) pode fazer o cálculo a partir do peso do grama do ouro (por exemplo, um grama de ouro hoje equivale a R$ 130,00).

Embora não tenhamos em mãos dados precisos sobre o valor do escravo vendido em Leopoldina, podemos tirar uma média pelo que era pago em outras cidades. Por exemplo, em Guarapuava (PR), entre os anos de 1865-69, o preço do escravo adulto entre 15-40 anos era de 1:200$000 para homens e 1:066$000 para mulheres[8]. Mas tudo isso dependia das condições do mercado. Além disso, neste período tínhamos apenas o tráfico interno, o que tornava as variações de preço ainda maiores. Para ter dados mais precisos seria necessário, por exemplo, analisar as escrituras de venda de escravos em Leopoldina, pesquisa que demandaria um pouco mais de tempo, mas que pode ser realizada futuramente. 

E se a fuga de escravos era uma forma de resistência, a violência física contra seus senhores também ocorria na nossa região. O Leopoldinense do dia 29 de maio de 1881 traz a notícia da morte de um feitor por escravos, nas proximidades de Volta Grande, a 35 km de Leopoldina. Diz a notícia:

“O feitor da fazenda, Romualdo de Miranda, dispunha-se a castigar um escravo que desobedecera, quando os parceiros deste, em número de 30, lhe derrubaram a golpes de enxada.

Havia no sítio um homem livre companheiro do agredido, mas esse tratou logo de pôr-se a salvamento.

Os escravos sublevados encaminharam-se para a cidade a fim de apresentar-se a polícia mas disso foram dissuadidos pelo Sr. Lucas Soares Gouvea que os obrigou a voltar à casa do Sr. Sigaud.[9]

A notícia chama atenção por dois pontos. O primeiro é a violência empregada conta o feitor. É bem claro que ele não angariava simpatia dos cativos. Mas se isso não chega a ser algo que surpreenda, visto que sua função era vigiar e castigar os escravos, o fato de 30 deles o atacarem configura o ato como uma rebelião. Mas uma rebelião onde os revoltosos querem prestar contas à justiça dos seus atos? Este é o segundo ponto curioso: os escravos queriam se apresentar ao delegado e confessar o crime. No entanto, foram convencidos a não fazê-lo e retornaram à fazenda. Complexo, não?

O medo da violência era palpável. O jornal, no dia 21 de julho de 1881, levanta a discussão novamente sobre a questão da escravidão. Chamava a atenção para o perigo que corriam os senhores e suas famílias, apresentados como possíveis vítimas de escravos assassinos que desejavam conquistar sua liberdade a todo custo. O jornal, no entanto, não está condenando o escravo, mas, de certa forma, justifica suas ações pela privação da liberdade.

Não há que contestar: o escravo na maioria dos casos vive abandonado aos maus efeitos da escravidão, esquecendo-se quase todos de que ele é também homem, que tem alma, que tem coração (...) [10].

É curioso ler no mesmo jornal anúncios de captura de escravos e matérias abolicionistas, que defendem o emprego do trabalho imigrante a libertação de escravos. Na verdade, nada é tão simples quanto fazem parecer os livros didáticos de História e nada é mais instigante do que descobrir isso estudando a nossa História.





[1] ANDRADE, Rômulo.  Cafeicultura na Zona da Mata.  Revista Brasileira de História. São Paulo. n. 22, p. 93-131. 1992.
[2] O Leopoldinense. Leopoldina, 07 de julho de 1881, n. 50, p.01.
[3] O Leopoldinense. Leopoldina, 17 de fevereiro de 1881, n. 11, p.01.
[4]A moeda usada no Brasil, na época do Império, era o réis (1$000 = mil réis).
[5] O Leopoldinense. Leopoldina, 15 de maio de 1881, n. 35, p, 04.
[6] Conto de réis é uma expressão adotada no Brasil e em Portugal para indicar um milhão de réis. Sendo que um conto de réis correspondia a mil vezes a importância de um mil-réis que era a divisionária, grafando-se o conto por Rs. 1:000$000. FERNANDES, Aníbal de Almeida. Estudo comparativo entre 4 fortunas do império brasileiro na década 1860, sec. XIX. Disponível em: http://www.genealogiahistoria.com.br/index_historia.asp?categoria=4&categoria2=4&subcategoria=56, acesso em 28 out. 2016.
[7] FERNANDES, Aníbal de Almeida. Estudo comparativo entre 4 fortunas do império brasileiro na década 1860, sec. XIX. Disponível em: http://www.genealogiahistoria.com.br/index_historia.asp?categoria=4&categoria2=4&subcategoria=56, acesso em 28 out. 2016.
[8] SANTOS, Maciel Moraes. O preço dos escravos no tráfico atlântico: hipóteses e explicações. Disponível em: http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/AS07_163.pdf, acesso em 28 out. 2016.
[9] O leopoldinense. Leopoldina, 29 de maio de 1881, n. 39, p. 03.
[10] O leopoldinense. Leopoldina, 21 de julho de 1881, n. 53, p. 01.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

NÃO É SÓ A MULHER MARAVILHA QUE ESTÁ FAZENDO 75 ANOS!

Este ano praticamente todos os sites e revistas especializadas em HQs, e até mesmo a ONU, estão comemorando os 75 anos da Mulher Maravilha. Mas ela não está apagando as velinhas sozinha.  O ano de 1941 foi também o do nascimento de outras heroínas e super-heroínas dos quadrinhos, muitas delas desconhecidas do grande público.  Vamos falar de algumas delas, que também estão completando seus 75 anos em 2016.
Miss Fury - lançada em abril de 1941.

Para começar, a Miss Fury, considerada a primeira super-heroína criada por uma mulher: June Tarpé Miles. Ela estreou nas páginas do Sunday Comic, em 06 de abril de 1941. Também teve suas aventuras publicadas em revistas em quadrinhos, que chegaram a vender mais do as da Mulher Maravilha. Ela representa a mulher que se liberta dos padrões de vida exigidos pela sociedade burguesa e se torna independente.  Ela é a mulher que toma as rédeas da sua vida, assim como muitas outras nos anos de 1940. 

Miss Fury foi, também, uma inspiração para a criação da própria Mulher Maravilha. Segundo Jill Lepore,  em seu livro The Secret History of Wonder WomanMarston pediu ao desenhista Harry G. Peter que criasse a personagem forte como o Superman, patriota como o Capitão América e sexy como a Miss Fury.

War Nurse - maio de 1941.
O que acham de uma enfermeira britânica que coloca uma máscara e luta junto com outras mulheres durante a guerra contra nazistas? Esta é a War Nurse, personagem criada pela ilustradora Jill Elgin. Ela fez sua primeira aparição na Speed Comics #13, em maio de 1941, revista publicada pela Harvey Publications.  Em 1942, passou para as mãos de outra cartunista, Barbara Hall, e tornou-se líder de um grupo internacional de combatentes chamado Girl Commandos. Acredito que tenha sido o primeiro grupo de mulheres combatentes do crime, no caso combatentes de nazistas. Havia ainda uma coisa interessante no Girl Commandos: dele participavam mulheres de várias nacionalidades. A ideia realmente era muito original.

Miss Victory - Agosto de 1941.
Também sem poderes, mas com muita atitude, temos uma heroína que de simples secretária se transforma em uma ás da aviação: a Miss Victory. Criada pela quadrinista Nina Albright, em agosto de 1941, Miss Victory tirava o sono de muitos nazistas durante a II Guerra Mundial, pelo menos nos quadrinhos. Ela representa aquelas mulheres fortes que, munidas de patriotismo, deixaram sua vida pacata para ingressar ajudar no esforço de guerra e até pilotar aviões. Ela não está ali para ser salva, mas para salvar soldados e civis e vencer uma guerra.

E falando de patriotismo, talvez ninguém tenha sido mais
Pat Patriot - Agosto de 1941.
patriótica do que Pat Patriot. De operária a uma heroína, Patrícia Patrios, a Joana D’ Arc Americana, estreou em agosto de 1941, nas páginas da Daredevil Comics. Seus criadores foram Charles Biro e Bob Wood. Suas aventuras, num total de dez, foram publicadas até junho de 1942. A personagem não tem aparentemente poderes especiais. Mas, suas histórias levam o leitor a concluir que suas ações eram guiadas pelo espírito da liberdade. Em 1941, "Pat Patriot" tornou-se um símbolo do espírito de luta estadunidense.

Black Cat - Agosto de 1941.
A Black Cat foi uma personagem publicada pela Harvey Comics, de 1941 a 1951. Estreou na Pocket Comics # 1, em agosto 1941. Foi desenhada, dentre outros, por  Al Gabrielle e por Jill Elgin. Linda Turner é uma atriz e dublê de cinema que acaba se tornando uma combatente do crime. Começou perseguindo espiões nazistas nos Estados Unidos. Além de ser uma excelente lutadora ela sabe, também, pilotar todo tipo de veículo. Assim como muitas outras personagens, Linda entrou para o mundo da aventura por acaso. A Black Cat chegou a ser eleita uma das 100 mulheres mais sexy em HQs, pelo Comics Buyer's Guide's.

Madame Strange - novembro de 1941.
Misteriosa e bonita, a Madame Strange foi publicada pela primeira vez na Great Comics #1, em novembro de 1941. Foi uma super-heroína que lutou para proteger a América contra a ameaça nazista. Extremamente ágil e habilidosa com armas, ela também era uma piloto de perícia impressionante. Madame Strange foi criada por Charles A. Winter (Chuck Winter), sob o pseudônimo de "Achmed Zudella". Suas histórias foram publicadas apenas em três revistas.

Madame Satan - Dezembro de 1941.
Lady Satan foi criada por George Tuska e estreou na Dynamic Comics #2, em  dezembro de 1941. Ela perdeu seu noivo durante um ataque nazista ao navio em que estavam viajando. Após o ocorrido, jurou vingança ao III Reich. Usando uma máscara e um vestido de noite ela lutou contra os nazistas na França ocupada. Par a isso usava seu charme e uma arma de cloro. Em 1946 a personagem foi reformulada e ganhou poderes sobrenaturais tornando-se uma feiticeira.

Todas estas heroínas e super-heroínas têm duas coisas em comum: lutaram contra os nazistas e surgiram antes da Mulher Maravilha, que só seria lançada em dezembro de 1941. Com exceção, talvez, de Lady Satan, que sopra velinhas no mesmo mês da princesa amazona.


Outra coisa que elas compartilham com muitos outros heróis e super-heróis dos quadrinhos publicados em 1941: elas já combatiam os nazistas muito antes dos Estados Unidos entrarem na guerra, o que oficialmente só aconteceu em 11 de dezembro de 1941. Ao que parece os quadrinistas já apostavam na entrada do país na guerra. Na verdade, era uma questão de tempo, uma vez que o esforço de guerra já havia se iniciado e o país já estava se preparando para uma possível entrada no conflito mundial.

Muitas outras personagens femininas foram criadas neste período e a grande maioria deixou de ser publicada após o término da II Guerra Mundial. Algumas, como Madame Strange tiveram apenas algumas poucas histórias. Naquele período havia uma demanda muito grande por personagens e muitos estúdios os produziam aos montes. Infelizmente, nem todos sobreviveram às mudanças tomaram de assalto a sociedade estadunidense na década de 1950. A Mulher Maravilha pode ser considerara uma sobrevivente. Mas para sobreviver ela teve que mudar. 

A personagem criada em 1941 tinha ideias, outros objetivos. É esta Mulher Maravilha que está comemorando 75 anos. Um símbolo de força e inteligência feminina. Mas ela não estava sozinha. Havia junto a ela um panteão de super-mulheres que também merecem ser lembradas. São as mulheres-soldados dos quadrinhos, que defenderam os ideais de liberdade e enfrentaram as ditaduras fascistas, assim como tantas outras mulheres, reais, que sacrificaram suas vida nos anos de guerra e que também caíram no esquecimento. 

Para quem quer conhecer mais sobre assunto, recomendo os seguintes livros:


MADRID, Mike. Divas, Damages & Daredevils: lost heroines of Golden Age. [Minneapolis?]: Exterminating Angel Press, 2013.

------ The Supergirls: Fashion, feminism, fantasy, and the history of comic book heroines. [Minneapolis?]: Exterminating Angel Press, 2009.

ROBBINS, Trina. Tarpé Mills & Miss Fury: Sensational Sundays (1941-1944) - The first female superhero created & Drawn by a woman cartoonist. San Diego: IDW Publishing, 2013.

------. Tarpé Mills & Miss Fury: Sensational Sundays (1944-1949) – The first female superhero created & Drawn by a woman cartoonist. San Diego: IDW Publishing, 2011.

------. The Great Women Cartoonists. New York:  Watson-Guptill Publications, 2001.


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

SOBRE O III FÓRUM NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTE SEQUENCIAL

Aconteceu, entre os dias 21 e 23 de outubro, o III Fórum de Pesquisadores em Arte Sequencial, na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia (GO). O FNPAS é acontece a cada dois anos, sendo um evento da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS). A organização do evento deste ano ficou a cargo da Prof. Dr. Edgar Franco. 

Abertura, dia 21 de outubro, no auditório da Faculdade
de Artes Visuais da UFG.
O FNPAS é um evento multidisciplinar que envolve especialistas de todas as áreas do conhecimento e está aberto a todos os temas, relacionados com quadrinhos, cinema, games, enfim, tudo aquilo que pode ser considerado uma narrativa sequencial.

O FNPAS surgiu em Leopoldina (MG), em 2012, a partir da reunião de um grupo de pesquisadores que desenvolviam projetos com uso de Histórias em Quadrinhos. Durante dois dias realizamos apresentações de pesquisas e palestras, no CEFET - Leopoldina. Na época foram inscritos aproximadamente 40 trabalhos. Daquele encontro nasceu a ASPAS. A criação da ASPAS foi oficializada no ano seguinte, em 2013. O FNPAS tornou-se o evento acadêmico itinerante da ASPAS e fica sob a coordenação de um pesquisador associado. 

Prof. Dr. Dominic Arsenault
(Universidade de Montreal) 
Sua segunda edição foi em São Leopoldo (RS), nas Faculdades EST, sob a direção do Prof. Dr. Iuri Andreas Reblin. Além de um número maior de inscritos, o evento também contou com a presença de estudantes de graduação e pós-graduação além de palestrantes estrangeiros. A partir da segunda edição, tivemos a possibilidade de, por meio de acordos promovidos pelos organizadores e suas instituições, trazer palestrantes de outros países o que torna o FNPAS um evento acadêmico internacional.

O III FNPAS mostrou que este movimento iniciado em 2012 tem se fortalecido. Foram mais de 70 inscritos e um dia inteiro de sessões de comunicações, envolvendo pesquisadores de diversas áreas (teologia, sociologia, antropologia, artes, educação, química, história, linguagens, etc). Cansativo, mas compensador. A equipe do Prof. Edgar Franco superou todas as expectativas. Segundo ele, foi o maior evento acadêmico sobre quadrinhos já ocorrido no Estado de Goiás. 

Lançamento de livros, quadrinhos e fazines, no dia
22 de maio de 2016.
O próximo encontro será realizado em 2018 e o local será anunciado durante o III Entre ASPAS, encontro que reúne os membros da ASPAS, que vai acontecer em Leopoldina, entre os dias 25 e 27 de maio de 2017.

Gostaria de agradecer a todos os participantes e aqueles que mesmo não podendo ir confiaram no sucesso do FNPAS e contribuem para que ASPAS se consolide como uma instituição de pesquisa que tem ainda muito a contribuir com a nossa sociedade.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

DO GOVERNO FIGUEIREDO AO GOVERNO FHC: SLIDE

Slides que fiz para meus alunos, para revisão de matéria. Mas, cuidado! O Slide não dispensa a leitura do livro nem dos textos estudados em sala de aula.

domingo, 16 de outubro de 2016

RUDOLF PETERSSON E QUADRINHOS DE HUMOR NA SUÉCIA

Capa da revista 87:an # 04 - 2016.
Já escrevi uma postagem sobre Bamse, um personagem de animação que ganhou suas revistas em quadrinhos na Suécia. Quando ganhei Bamse também ganhei outras revistas, nem todas com personagens suecos, como uma revista do Tio Patinhas e outra do Garfield[1]

Quando meu amigo me deu as revistas (muito obrigada novamente), ele destacou um título: 87:AN. Ao contrário de Bamse, que é destinada ao público infantil, 87:an é um quadrinho de humor voltado para jovens e, também, muito mais antigo. A revista que eu ganhei é uma publicação bimestral, baseado em personagens clássico dos quadrinhos suecos, criados em por Rudolf Petersson (1896 - 1970), 87:an e 91:an.

Entre 1915-1916, Petersson estudou na Escola de Belas Artes de Gotemburgo. Começou a carreira de desenhista ainda bem jovem. Aos 17 anos, publicou, em 1913, uma coleção de caricaturas chamada "Känt folk" (pessoas conhecidas). Antes de criar o personagem que o deixaria famoso na
Rudolf Petersson no serviço militar 1916. 
Disponível em: <
http://zip.net/bhtvqx>,
acesso em: 15 out. 2016
Suécia, Petersson viveu durante um tempo nos Estados Unidos onde trabalhou como repórter desenhista no 
Cleveland News. Retornou à  Suécia em 1931. 

Em Estocolmo trabalhou desenhando quadrinhos para suplementos de jornais até que, em 1932, publicou na revista sueca semanal, Allt för Alla, o personagem que o deixaria famoso. O um jovem e ingênuo camponês chamado Mendel Karlsson, que depois se alistou do exército sueco e recebeu o número de série 91:an. 

O personagem "91:an Karlsson" foi inspirado em seu próprio criador, da experiência que teve em servir no exército, entre 1916 e 1918. Seus quadrinhos fizeram tanto sucesso que foram publicados em toda a Escandinávia e em vários países da Europa. Pelo personagem, Pertersson recebeu em 1965 o Prêmio Andamson, um dos mais importantes da Suécia.

87:an # 04, 2016, p. 04.
Inicialmente, suas histórias foram publicadas em outras revistas em quadrinhos. Em 1956, 91:an ganhou sua própria revista. A HQ gira em torno das aventuras atrapalhadas e bizarras do recruta 91:an e seu companheiro de 87:an (Lars Axelsson), além de outros personagens, que teriam sido inspirados em pessoas que o autor conheceu durante sua juventude.

 São quadrinhos do tipo “pastelão”. A princípio eles me lembraram dos quadrinhos do Recruta Zero (que na Suécia é publicado com o nome de Knasen), que eu lia na infância. E tem até algumas semelhanças. 91-Ball e 87-Ball são recrutas preguiçosos que estão sempre arrumando uma desculpa para fugir do trabalho.

Mas, apesar a impressão inicial, percebe-se que é muito diferente. A começar pela dinâmica dos personagens. Ademais, Zero foi criado um pouco depois, na década de 1950. Será que Mort Walker  se inspirou nos quadrinhos suecos?

87:an # 04, 2016, p. 74
Na revista 87:an, publicada atualmente, o personagem 87:an é o protagonista de praticamente todas as história. Seu parceiro, 91:an, também participa da maioria delas. É um subproduto do título principal, por assim dizer. O interessante é que ela traz histórias clássicas de 91:an.

Com a saída[2] de Petersson outros quadrinistas assumiram a produção da série. Durante muitos anos ela foi assinada por Nils Egebrand, posteriormente por Jonas Darnell , Gert Lozell e Jonny Nordlund, entre outros. Em 2014 a série foi assumida por Peter Nilsson. O personagem tem sua legião de fãs e um site oficial que traz uma serie de informações sobre a HQ (clique aqui para conferir).

Logo da Academia Sueca de
Histórias em Quadrinhos
Durante a pesquisa, como bônus, eu acabei descobrindo que existe uma Academia Sueca de Histórias em Quadrinhos, (Svenska Serieakademin), fundada em dezembro 1965, em Estocolmo. A academia distribui, a cada ano, prêmios reconhecendo o talento de cartunistas suecos e estrangeiros, além de diplomas a jornalistas, tradutores, editores, etc. A Academia Sueca de Quadrinhos tem um site atualizado na internet. Clique aqui para acessar.

Confesso que não conheço nada da tradição de produção de quadrinhos na Suécia e suponho que os quadrinhos lá tenham florescido no final do século XIX, como aconteceu nos Estados Unidos, no Brasil e em vários países europeus. Mas, o fato de ter uma academia voltada só para as HQs, com mais de 50 anos de existência, me permite presumir que existe interesse não apenas artístico como comercial pelo produto. Algo que terei que conferir futuramente.


Fontes pesquisadas:

Early Tenggren portrait of Rudolf Petersson discovered. Disponível em: http://gustaftenggren.blogspot.com.br/2015/04/early-tenggren-portrait-of-rudolf.html, acesso em 15 out. 2015.

GOIDANOCH, Hiron Cardoso. Enciclopédia dos Quadrinhos. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014.

RUDOLF Petersson. Disponível em: http://dictionnaire.sensagent.leparisien.fr/Rudolf%20Petersson/fr-fr/, acesso em 15 out. 2016.

RUDOLF Petersson. Lambiek Comiclopedia. Disponível em: https://www.lambiek.net/artists/p/petersson_rudolf.htm, acesso em 15 out. 2016.

RUDOLF Petersson.. Disponível em: http://91an.net/kreatorer/rudolf-petersson/, acesso em 15 out. 2016.




[1] Lembrando aqui que eu não sei nada de sueco, mas a grande vantagem das histórias em quadrinhos é que, quando não se pode ler o texto, lê-se a imagem. Assim, posso até não saber os diálogos, mas entendo as piadas e posso deduzir muito da trama a partir delas.
[2] Aqui, acredito que a saída dele veio com a venda dos direitos sobre o personagem, mas os textos que eu li não deixam isso bem claro.