domingo, 19 de fevereiro de 2017

A SUBVERSÃO DO CARNAVAL


Carnaval de 2016.
Ontem à noite o Carnaval começou anunciar sua chegada em Leopoldina com o Bloco do Pó de Giz, formado por professores. O que me fez recordar dos meus primeiros carnavais lá no início da minha adolescência. 

Recordei do meu primeiro baile no Clube do Moinho, aos meus doze anos, acompanhando minha tia. A primeira pessoa que reconheci no meio da multidão de foliões foi meu professor de matemática, o rígido professor Waldir. Ele estava com um copo de cerveja na mão (ele só tinha um braço), um bermudão, uma camiseta e vários colares havaianos pendurados no pescoço. 

Eu fiquei chocada! Era como se eu nunca o tivesse visto na minha vida. Era outra pessoa. Ou não era?

Para mim, a estudante de 12 anos, ver meu professor num baile de carnaval, fantasiado, bebendo e sambando era algo extremamente escandaloso. Foi a primeira vez que eu percebi que a imagem que construímos de alguém nem sempre representa o que ela é na realidade.

O professor Waldir foi meu exemplo e meu libertador. Todos os anos, no carnaval, eu saio como eu quero: com shorts curtos, camisetas, fantasias extravagantes ou simples. Às vezes escandalizo meus alunos mais jovens, às vezes participo das brincadeiras com meus alunos mais velhos.

Mas não é pra isso que serve o Carnaval? Para que as pessoas possam se libertar das suas inibições, deixar suas emoções aflorarem livremente sem a preocupação de censurado ou mesmo condenado socialmente pelas suas ações?

Afinal, no carnaval tudo pode. Era assim na Idade Média, com a Festa dos Loucos, quando se colocava de lado as regras rígidas do cristianismo por três dias e se abraçava sem medo a subversão. Da mesma forma o entrudo no Brasil, no século XIX, oferecia aos seus participantes a oportunidade de extravasar toda a tensão acumulada durante o ano. Os bailes de máscaras, à moda veneziana, introduzidos mais tarde, permitiam que homens e mulheres, protegidos pelo suposto anonimato oferecido pelas mascaras, deixassem aflorar suas paixões.

Carnaval é tempo de libertação. Homens se vestem como mulheres, mulheres usam fantasias extravagantes, crianças correm e brincam, atirando confetes e serpentinas. É época de uma transgressão saudável e libertadora.

Talvez meus carnavais não sejam mais como eram na época do saudoso professor Waldir. Mas sempre é bom ver a alegria das crianças e dos jovens e achar graça de quando me veem com uma fantasia ou uma roupa menos comportada, como se aquilo fosse à coisa mais impressionante do mundo.

E embora talvez algumas possam pensar que isso causa problemas no meu trabalho, se enganam. Eu aprendi que o professor Waldir era ao mesmo tempo o folião e o professor, mas sabia que na sala de aula prevalecia o professor. Mas havia uma admiração muito grande por esta dicotomia. Eu tinha um ótimo professor, que se tornava uma pessoa alegre e festiva na qual me inspiro até hoje.

Postagem feita em memória do professor Waldir, um grande matemático e um excelente folião.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

MINHAS ÚLTIMAS PUBLICAÇÕES SOBRE HISTÓRIA DOS QUADRINHOS E SOBRE QUADRINHOS

Eu colaboro esporadicamente para alguns sites como o site História Hoje e o Lady's Comics e para a revista francesa especializada em quadrinhos Papiers Nickelés. Como a carga horária de professora é pesada, e eu não consigo deixar de levar serviço para casa, nem sempre posso enviar regularmente textos. Mas, entre trancos e barrancos, sempre sai alguma coisa que os editores consideram razoavelmente bom para publicação. 

Minhas últimas duas publicações foram uma em dezembro e agora uma em fevereiro. Em dezembro saiu um texto meu sobre Cecília Capuana (derivado de um texto que eu publiquei aqui no blog, então digamos que tenho uma versão em português, caso algum se interesse, clique aqui para ler) na edição n. 51 da Papiers Nickelés. 

Agora, em fevereiro, publiquei uma postagem sobre Angoulême, no Lady's Comics (afinal, fui lá como representante do grupo), sobre a presença feminina no festival deste ano (clique aqui para conferir o texto). É um texto que meio que complementa os que eu publiquei aqui, sobre Angoulême, além de trazer muitas novidades.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

THE INK LINK – ARTISTAS DOS QUADRINHOS ENGAJADOS

Um dos acontecimentos que marcaram o 44º Festival Internacional de Angoulême, e sobre a qual eu tinha decididamente que escrever, foi o lançamento da associação The Ink Link, que reúne quadrinistas em torno de causas sociais. Ela foi oficialmente apresentada durante o festival de Angoulême, no dia 27 de janeiro, às 18 horas, com a presença de seus cofundadores Laure Garancher, Mayna Itoiz e Wilfrid Lupano. Eu até confirmei presença no coquetel de lançamento, mas acabei não podendo ir porque no mesmo horário eu tive outro compromisso.

Como já relatei em outras postagens, tudo em Angoulême foi muito intenso. Eu recebi vários convites para lançamentos, coquetéis e reuniões dos quais não consegui participar. Algumas conferências eu não consegui assistir, também não visitei nem metade das exposições. Faltou um pouco de organização da minha parte, claro. Como foi minha primeira vez eu não fazia ideia do tamanho do festival, mesmo com a programação em mãos.

Não pude ir mas procurei me inteirar sobre o assunto. O The Ink Link é uma associação fundada por quadrinistas que, entre outras coisas, cria e materiais educacionais, especialmente na forma de Histórias em Quadrinhos, para projetos voltados para a promoção da saúde, dos direitos humanos, educação ambiental, etc. A associação considera os quadrinhos como uma ferramenta eficaz para o diálogo intercultural. A linguagem dos quadrinhos, por assim dizer, tem o poder de levar o conhecimento comunidades que passam por dificuldades em várias áreas, além de facilitar o diálogo entre diferentes culturas.

A associação foi justamente criada para isso: para apoiar causas sociais, atividades de desenvolvimento e os valores humanos através das artes visuais. Para isso conta com uma rede de artistas engajados que pretendem usar dos recursos da nona arte para ajudar no trabalho realizado por organizações não governamentais e associações sem fins lucrativos. The Ink Link acredita no poder da educação e da comunicação através dos quadrinhos.

E tudo começou na América do Sul, quando Laure Garancher, que também é perita do Ministério Francês dos Negócios estrangeiros, recebeu um financiamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o trabalho em uma comunidade amazônica, há cerca de um ano e meio. Faziam parte da sua equipe os outros dois cofundadores da The Ink Link, Mayana Itoiz e Wilfrid Lupano. 
O grupo trabalhou com populações que viviam isoladas na Amazônia na região do planalto das Guianas, que no Brasil envolveu os Estados do Pará e do Amapá. O maior obstáculo para o trabalho, que tinha por objetivo ensinar a população a se prevenir contra doenças como a malária, era a comunicação. A solução veio através da arte, no caso da arte sequencial.  
Através de ilustrações a equipe conseguiu orientar, por exemplo, garimpeiros a usarem um kit distribuído pela OMS para fazerem o autoexame para prevenção da malária. Ao retornarem à França decidiram repetir a experiência. Nascia em dois de setembro de 2016 The Ink Link, que atualmente reúne vinte profissionais das artes visuais, entre quadrinistas e animadores.
No site da associação podem ser acessados vários dos projetos já desenvolvidos e em desenvolvimento, assim como saber como contribuir para que os artistas possam continuar usando os quadrinhos ampliar a comunicação entre as pessoas, por meio da educação. O site da associação é http://www.theinklink.org/fr
Material produzido em Português para trabalhar com garimpeiros na Amazônia.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

OS DESAFIOS FINANCEIROS DOS PROFISSIONAIS DOS QUADRINHOS

Um artigo publicado por Quentin Girard, em 02 de fevereiro de 2017, para o site Liberation, apresenta uma realidade perversa da indústria de quadrinhos franco-belga: 36% dos quadrinistas vive abaixo da linha da pobreza. A grande concorrência e a superprodução são apontados como fatores que estão levando os artistas a terem seu trabalho desvalorizado e sendo obrigados a recorrer a um segundo trabalho, para garantir seu sustento. Segundo o artigo, para as mulheres ainda é muito pior: 50% das autoras estão abaixo da linha de pobreza, 67% abaixo do salário mínimo anual."[1] 

Tais dados justificam a preocupação dos organizadores do Festival Comic Strip (Fête de la Bande Dessinée) de Bruxelas, que criaram este ano o Prêmio Atomium, com o objetivo de incentivar os jovens a investirem e permanecerem na carreira de quadrinista. A pesquisa foi feita pelos Les Etats généraux de la bande dessinée, associação fundada em 2014, e que realizou o levantamento em 2016.

A pesquisa envolveu 1500 pessoas e entre os seus resultados estão os seguintes dados (aplicados à realidade franco-belga): atualmente 27% dos autores são mulheres (o que aponta um significativo crescimento, uma vez que dados em anteriores este número estava por volta de 13%), apontando para a crescente feminização da profissão, 56% dos autores pesquisados têm menos de 40 anos. A idade média das mulheres é de 34 anos, a dos homens 41 anos.

A partir destes dados e do próprio objetivo da criação do Prêmio Atomium, resolvi fazer um levantamento, envolvendo artistas de vários países, alguns deles envolvidos com o mercado franco-belga, outros veteranos aqui no Brasil e no exterior. Todos têm muito do que falar sobre as dificuldades da profissão e, ao decorrer do texto o leitor vai perceber que a vida de quadrinista não é fácil não, m lugar algum do mundo.


O quadrinista brasileiro Rafael Cordeiro ressalta, entre outras coisas, a falta de reconhecimento da profissão no Brasil e a existência das chamadas “panelinhas” (grupos fechados) que limitam as possibilidades de se conseguir contratos com editoras. Além disso, Cordeiro acredita que para os roteiristas é ainda mais difícil conseguir a atenção das editoras, porque “Um bom desenhista, mesmo desconhecido, não leva mais de 1 minuto pra ter o talento reconhecido. Pra avaliar um roteirista, o empregador - o editor - precisa de tempo. E no tempo corrido de todos, é mais fácil dizer não”.
A veterana Maria Cláudia França Nogueira, a “Crau da Ilha”, conhecida pela sua participação na revista O Bicho, publicada durante os anos da Ditadura Militar no Brasil, conviveu com vários cartunistas que conquistaram fama nacional e se consolidaram na carreira, como Laerte, Nani, Paulo Caruso e Chico Caruso, assim como outros que acabaram tomando outros caminhos, migrando para outras profissões. Ela acredita, pela sua experiência, que “o sucesso é para poucos, que aliam grande talento, vocação para se manter focado, persistência e saber aproveitar oportunidades”.
Por mais que se afirme, por exemplo, que no Brasil as coisas são difíceis, em outros países, economicamente mais desenvolvidos, os desafios são quase os mesmos.
A italiana, Cecília Capuana, que atuou no mercado francês nas décadas de 1970 e 1980, também encontrou muitas dificuldades. Como não possuía um agente era difícil oferecer seu trabalho em grandes editoras. No início da carreira ela fez ilustrações para jornais e até para uma empresa de transportes. Segundo Capuana, “é difícil de ser livre”.
Mas ser livre foi a forma pela qual Trina Robbins conseguiu ter seu material publicado nos anos de 1970, quando participava do movimento underground, nos Estados Unidos. Segundo Trina Robbins, enquanto as grandes editoras rejeitavam seu trabalho, como quadrinista underground ela nunca teve problemas em publicar seus próprios quadrinhos, pois as editoras underground estavam contentes em publicar o que vendessem “e eles sabiam que meus quadrinhos venderiam”.
Os quadrinistas suecos compartilham com seus colegas de outras nacionalidades as dificuldades de se manter apenas com seu trabalho com Histórias em Quadrinhos. 
Knut Larsson relata que a vida de um artista dos quadrinhos não é fácil e que é preciso saber gerenciar a carreira. Quando os livros têm uma boa vendagem consegue-se ter uma boa renda, caso contrário é preciso buscar por outras formas de sustento, com trabalhos alternativos. Uma opção é recorrer às subvenções. “Na Suécia pode-se candidatar a bolsas da Sveriges Författarfond e Konstnärsnämnden. Eles variam de um ano a vários anos de um salário mínimo. Não é suficiente viver inteiramente, mas é uma base econômica.” Mas a competição é muito grande. Muitos artista optam pelo ensino em escolas de arte ou uma escola de quadrinhos.
O quadrinista sueco, Fabian Göranson, que estava presente este ano no Festival do Angoulême, acredita que o mercado de quadrinhos está dividido em duas partes. De um lado estão os quadrinhos comerciais onde se encontram quadrinistas que conseguem viver inteiramente de produzir quadrinhos, mas têm liberdade artística limitada. Muitas vezes eles desenham um personagem que eles não criaram. De outro, há artistas que trabalham com quadrinhos independentes. Eles possuem liberdade artística, mas com poucas exceções eles também têm outros trabalhos, geralmente em campos relacionados. O próprio Göranson trabalha editor, ilustrador e tradutor. Possui colegas que atuam como professores de arte, animadores, etc.
O pesquisador sueco Thomas Karlsson reforça o depoimento dos autores e acrescenta que autores que conseguem publicar tiras em jornais e que, desta forma, criam um público leitor cativo, tem mais chances de atingir boas vendas em seus álbuns, o que é de certa forma um limitador para a maioria dos artistas.
Atualmente, um grande número de quadrinistas atua de forma independente, sendo que alguns poucos conseguem contratos com editoras para publicarem seus quadrinhos. Para muitos é preciso recorrer a financiamentos coletivos ou às suas próprias economias para terem seu material publicado.

Esta é uma das dificuldades destacadas por Cristina Eiko, quadrinista brasileira, que publicou muitos dos seus quadrinhos usando seus próprios recursos. Segundo ela, o caminho para quem que ter seu material publicado é penoso, seja por financiamento coletivo ou por edital do governo. E as coisas são simples, de acordo com Eiko, ela teve que aprender a fazer tudo na “marra”. “A gente tenta manter uma vida simples, para podermos ter uma reserva para imprimir a próxima HQ caso não tenha outro recurso.” Não há exatamente uma cartilha que ajude o quadrinista a encontrar o caminho mais fácil e rápido para ter seu material publicado.
Uma visão mais positiva vem de Germana Viana. Para ela “quadrinhos é missão de vida, eu nunca me senti tão completa e realizada trabalhando em algo que não fosse fazer quadrinhos”. Mas os quadrinhos ainda não são sua principal fonte de renda. Esta vem dos trabalhos que ela desenvolve com letreiramento e design para empresas, em sua maioria relacionados à área dos quadrinhos.
O mercado dos quadrinhos, apesar de especificidades, acaba tendo o mesmo comportamento de país para país, podemos citar o caso do premiado quadrinista brasileiro, André Diniz, que atualmente vive em Portugal. Para Diniz, o mercado dos quadrinhos é difícil e incerto. Há períodos de muito trabalho e outros em que “pode ficar um bom tempo sem entrar nada”. Além disso, falta seriedade e profissionalismo de algumas editoras, que nem sempre levam os projetos até o final.  A mudança para Portugal não alterou muito esse estado de coisas. Segundo André Diniz, “meu trabalho continua seguindo o mesmo caminho de quando eu estava no Brasil”.
Os exemplos de sucesso estão em todos os lados. Eles são as bandeiras tremulando ao vento e atraem a atenção dos jovens talentos. Quadrinistas iniciantes acabam percebendo mais tarde que não há glamour no mundo dos quadrinhos, mas, como em qualquer outra profissão, muito trabalho, dedicação e sacrifício.
Ter sucesso no mercado dos quadrinhos não é fácil, como também não é fácil se manter como artista plástico ou poeta, por exemplo. Onde a arte está envolvida é difícil monetarizar a obra de um artista. E é muito fácil esquecer que o mercado dos quadrinhos é um essencialmente capitalista e que as grandes editoras têm o lucro por objetivo, o que significa exploração do trabalho e o estímulo a uma competição nem sempre justa entre quadrinistas.

Entrevistas
Entrevista concedida por André Diniz, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Cecília Capuana, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Maria Cláudia França Nogueira “Crau da Ilha”, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Cristina Eiko, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Fabian Göranson, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Knut Larsson em 03 fev, 2017.
Entrevista concedida por Germana Viana em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Rafael Cordeiro, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Thomas Karlsson, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Trina Robbins, em 02 fev, 2017.
Fontes na internet
GIRARD, Quentin. “36% des auteurs de bd sont sous le seuil de pauvreté". Disponível em: http://www.liberation.fr/auteur/12249-quentin-girard, acesso em 03 fev. 2017.



[1] GIRARD, Quentin. “36% des auteurs de bd sont sous le seuil de pauvreté". Disponível em: http://www.liberation.fr/auteur/12249-quentin-girard, acesso em 03 fev. 2017.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

É POSSÍVEL TRABALHAR APENAS COMO QUADRINISTA?


A organização do 8ª Comic Strip Festival de Bruxelas, que vai acontecer entre os dias 1º e 3 de setembro deste ano, anunciou durante o Festival de Angoulême o maior prêmio de quadrinhos da Europa, pelo menos em termos monetários. O Festival Comic Strip terá pela primeira vez o Prêmio Atomium.

O Atomium irá oferecer um montante de € 100.000 em prêmios em dinheiro, a artistas como uma forma de incentivar seu trabalho. Segundo os organizadores do festival, o número de quadrinistas vem diminuindo a cada ano, dadas as dificuldades de muitos deles se sustentarem financeiramente na atividade.

O anuncio do prêmio ocorreu durante uma Conferência de imprensa do Festival de Angoulême deste ano, com a participação de Micha Kapetanovic, chefe do Comic Strip Festival, Jean-David Morvan, patrocinador do Festival 2017 e Thierry Tinlot, que se juntou à organização do Festival como um consultor.

A princípio serão oferecidos oito prêmios (clique aqui para conferir todos os prêmios), mas outros podem ser acrescentados até setembro. Os prêmios variam de 20.000 a 3.000 e podem incluir ainda um contrato com uma editora. Serão premiados jovens quadrinistas que, por exemplo, não tenham publicado mais de dois álbuns. Serão premiados trabalhos de humor, quadrinhos históricos e, por exemplo, quadrinhos que estimulem a prática da cidadania.

O Prêmio Atomium pretende ser um reforço financeiro a quadrinistas para que estes tenham condições de se dedicar mais ao trabalho sem precisar comprometer sua renda com atividades complementares. Na verdade, a organização do festival belga teme que a profissão entre em extinção, não atraindo as novas gerações. O que me leva a questionar a extensão do problema. É uma realidade franco-belga ou mundial?

Apesar da indústria dos quadrinhos ser muito lucrativa, o numero de quadrinistas vem diminuindo a cada ano. Durante boa parte do século XX foi recorrente o movimento de profissionais dos quadrinhos que migraram para outras atividades, geralmente ligadas às artes e à comunicação.
  
Na primeira metade do século XX nos Estados Unidos, por exemplo, ser quadrinista não era necessariamente uma profissão de prestígio e muitos artistas viam o trabalho nos estúdios como algo temporário. No Brasil, na mesma época temos vários exemplos de artistas plásticos, cartunistas e quadrinistas que desenvolviam diversas atividades como forma de complementar a renda familiar. Esta realidade não mudou muito nos últimos 60 anos e, ao que tudo indica, é mundial.

Eu tive a oportunidade de conversar com quadrinistas de várias gerações e de diferentes países a este respeito[1]. A maioria deles e delas relata dificuldades financeiras em se manter apenas com a profissão, e a necessidade de complementar a renda com outras atividades, muitas vezes ligadas aos meios de comunicação ou ao próprio mercado dos quadrinhos. Embora não se descarte a possibilidade do profissional dos quadrinhos conseguir se manter apenas com seu trabalho, esta é uma realidade usufruída por poucos.

É necessário refletir, também, acerca das preocupações dos organizadores do Comic Strip Festival. Até que ponto revelam um interesse real para com os profissionais que trabalham com quadrinhos. Até que ponto denunciam o interesse das editoras em garantir a manutenção e reprodução da mão de obra futura e, portanto, dos seus lucros. Afinal, os quadrinhos são uma indústria, forjada a partir de relações capitalistas.

Links consultados
De nombreux prix remis cette année lors de la Fête de la BD à Bruxelles. Disponível em: https://www.rtbf.be/culture/bande-dessinee/detail_de-nombreux-prix-remis-cette-annee-lors-de-la-fete-de-la-bd-a-bruxelles?id=9514819 , acesso em 01 de fev. 2017.

Brussels Comic Strip Festival will host Les Prix Atomium de la Bande Dessinée for the very first time. Disponível em: http://www.eturbonews.com/76996/brussels-comic-strip-festival-will-host-les-prix-atomium-de-la-b, acesso em 01 de fev. 2017.




[1] Estes relatos serão trabalhados na segunda parte deste texto.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

IMPRESSÕES GERAIS SOBRE DO FESTIVAL DE ANGOULÊME

Hotel de Ville.
Este ano fui ao Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême. Para quem não conhece, o Festival de Angoulême é realizado anualmente na cidade de Angoulême, na França, e é um dos mais importantes do mundo. Eu participei pela primeira vez.

Parti de Portugal para França na companhia de mais 15 pessoas, entre elas autores, editores, estudiosos e fãs da nona arte. Foi minha primeira viagem longa de comboio (trem) e eu realmente não estava preparada para ela. Duas coisas me incomodaram: o calor que fazia dentro do comboio e a falta de espaço entre as poltronas que fez com que eu preferisse ficar em pé ou no bar durante boa parte da viagem. Uma viagem por sinal longa: cerca de 20 horas até o destino final, Angoulême.Mas o sacrifício foi válido. Primeiro porque o festival foi fantástico, segundo porque a cidade, Angoulême, por si mesma compensa o sacrifício. É uma cidade belíssima.
 
Minha Credencial.
Saímos quarta a noite e chegamos em Angoulême quinta noite, a tempo de alguns de nós fazerem seu credenciamento. Eu me credenciei como imprensa internacional, pois eu tenho um blog sobre quadrinhos e porque colaboro com revistas como a Papiers Nickeles e com sites como o Lady’s Comics. Fiz meu credenciamento pela Lady’s Comics, uma vez que atualmente pesquiso e escrevo sobre as mulheres nos quadrinhos. Como representante da imprensa eu tinha direito a uma sala super simpática no Hotel de Ville, um castelo medieval que hoje é um tipo de prefeitura, onde os membros da imprensa se reuniam, tinham direito a internet, café, suco, água etc.

O festival começou no dia 26 e seguiu até do dia 29 de janeiro. A programação foi intensa. Não é exagero dizer que eu não consegui ver tudo. A cidade inteira torna-se um grande palco dedicado às Histórias em Quadrinhos.  Ruas, lojas, restaurantes, confeitarias e até o mercado municipal são decorados com temas relacionados aos quadrinhos. Assim, cada esquina tem alguma novidade, alguma coisa que chame a atenção do visitante.

Prestem atenção: entre pães, doces e vinhos
colocou-se álbuns de quadrinhos nesta confeitaria.
Era assim em todos os lugares praticamente.
E as exposições, elas estavam em todos os lugares. Havia exposições de quadrinhos dentro das igrejas e de museus como o Museu de Angoulême (que tem uma coleção maravilhosa de objetos e fósseis pré-históricos) e o Museu da Resistência (dedicado à memória do movimento da resistência francesa durante a II Guerra Mundial), teatros, galerias e prédios públicos. Os bares e restaurantes se tornaram dia e noite o ponto de encontro de jornalistas, artistas e fãs.

Autores estavam a todo lado, autografando seus álbuns e interagindo com o público. Tive meus momentos, por exemplo, com Posy Simmonds, presidente de júri deste ano, quando ela autografava um álbum (uma revista em quadrinhos) que eu comprei. Era fácil, por exemplo, encontrar com Hermann, vencedor do Grand Prix de 2016 e homenageado com uma linda exposição no Espaço Frnaquim ou o brasileiro Marcelo Quintanilha, também premiado ano passado.

Autora consagrada dos Quadrinhos,
Posy Simmonds é super simpática.
Enquanto autografava um álbum
para mim ainda falou algumas
palavras em português.
O público foi intenso e envolvia pessoas de todas as idades. Havia muita visitação escolar, mas a grande massa de visitantes eram adultos acima dos trinta anos de idade. Entre quinta e sexta-feira já haviam passado aproximadamente de 35 mil pessoas pelo festival, segundo a organização. E muitos mais eram esperados. Sábado a cidade foi tomada por turistas e era quase impossível entrar nas exposições, das mais simples às mais concorridas.

Angoulême também foi lugar para se fechar negócios e para muitos autores encontrarem editores e mostrarem seus trabalhos. Havia estandes de grandes e pequenas editoras, não apenas da França e da Bélgica, mas de outros países como Argentina, Estados Unidos, Chile e Suécia. O mercado dos quadrinhos, pelo que pude perceber está na todo o vapor. Muitos lançamentos, filas enormes para pegar autógrafos, conferências, etc.

A sala de imprensa estava sempre cheia, com correspondentes de todo o mundo enviando informações para rádio, televisão, jornais, sites e blogs. Entrar nas conferências era muito difícil. A que eu queria assistir perdi porque me atrasei cinco minutos. Nem com a minha credencial eu consegui entrar. Vou ficar mais esperta na próxima vez.
Ruas lotadas no sábado pela manhã!

Mas, não se preocupem, eu tenho muito coisa ainda pra relatar. Conversas com autores, com colegas pesquisadores e impressões específicas sobre exposições ainda vão rolar, seja aqui no blog, no Lady’s Comics e em outros sítios. No geral, o festival foi além de qualquer expectativa que eu pudesse ter. Tanto pela receptividade das pessoas, os contatos que fiz e o muito que aprendi nos quatro dias que fiquei na charmosa comuna de Angoulême.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

NA SUÉCIA, SEM NEVE MAS COM MUITO CALOR HUMANO

Kulturhuset, em Estocolmo.
Acho que bati meu recorde de distância: fui parar na Suécia. Não estava nos meus planos iniciais. Já haviam me sugerido, mas eu não cheguei a levar a sério. Porém, eu comecei a conhecer um pouco da História dos Quadrinhos suecos e fiquei muito interessada. Em especial a participação feminina no mercado de quadrinhos. Imagine um país onde a participação das mulheres no setor é de 50% e onde as questões de gênero não geram conflitos, pelo menos não como no Brasil (35%) ou na França (12%).

O país, claro, também foi me atraindo aos poucos à medida em que eu pesquisava. Sempre quis ter aquelas férias de inverno onde as pessoas fazem bonecos de neve e deitam na neve para fazer anjos. Não que eu nunca tenha visto neve. Uma vez, há muitos anos atrás, nos Alpes Suíços. Mas foi muito rápido e era a primeira neve, poucos centímetros apenas. 
Serieteket do Kulturhuset, em Estocolmo.
Por tudo isso eu resolvi incluir Estocolmo em quatro dias da minha viagem. Destes quatro dias, dois efetivamente foram produtivos. Os outros envolveram traslados de aeroporto, táxi, enfim, não deu para dizer que foram quatro dias. Coloque aí dois e meio. Este foi meu maior erro.

Deveria ter pensando no tempo que perderia em aeroportos e aumentado pelo menos mais dois dias de viagem. Mas, como já comentei em postagens anteriores, minhas férias estão sendo um aprendizado. Estou aprendendo o que NÃO fazer. Mas isso eu vou detalhar em uma postagem específica sobre viajar sozinha pela Europa. Agora quero falar daquilo que me motivou ir parar na terra dos vikings: conhecer pessoas que produzem e/ou fazem Histórias em Quadrinhos.

Com Gabriel Winnberg, que me ajudou
a fazer contatos em Estocolmo.
Pra começar eu procurei um suporte em Estocolmo. Com pessoas conhecidas não consegui nada. Ou seja, com brasileiros eu não poderia contar, pelo menos com os que eu conhecia. Então fiz o que faço melhor: procurei contatos ligados à área dos quadrinhos. No início eu não consegui nada. Quando estava quase desistindo eu pensei: por que não tentar contato pelo facebook?

Eu busquei alguma coisa relacionada à Academia Sueca de Quadrinhos e achei uma página comemorativa dos 50 anos da Academia. Lá havia vários comentários. Fui diretamente aos autores destes comentários e enviei a eles uma mensagem pedindo informações sobre quadrinhos na Suécia.

Eis que fui respondida por um artista plástico, Gabriel Winnberg. Ele me introduziu na comunidade dos quadrinhos suecos através de um amigo quadrinista, Knut Larsson. O que se seguiu, então, foi uma reviravolta: para quem não tinha ninguém, conheci cerca de oito pessoas envolvidas diretamente com quadrinhos. Destas, encontrei com seis em Estocolmo, no dia 20 de janeiro.
Knut, autografando Cidade dos
Crocodilos para mim!

Sinceramente, eu nem sabia o que ia fazer. Meu inglês é muito ruim e meu francês ficou no passado. A sorte é que eu entendo boa parte do que me falam, tanto num idioma quanto no outro. O problema é dizer o que eu penso. Mas acabei descobrindo uma coisa muito importante. Quando as pessoas querem te entender elas te acolhem de tal forma que o idioma é uma barreira que se ultrapassa com algum esforço.

Eu fui super nervosa me encontrar com meus novos amigos e fui muito bem acolhida. Eles me apresentaram o centro cultural de Estocolmo o Kulturhuset, onde inclusive há uma gibiteca, que lá se chama Serieteket. Estou aprendendo aos poucos algumas palavras em sueco. Por exemplo, pesquisador(a) em quadrinhos lá se chama serieforskaren.

Depois saímos para conversar, falar sobre quadrinhos na Suécia e tudo mais. Ganhei presentes: um livro sobre a História dos Quadrinhos na Suécia, escrito por Fredrik Strömberg, com quem, aliás, vou encontrar em Angoulême e a História em Quadrinhos do Knut, Cidade dos Crocodilos, sobre a qual já falei aqui. Eu tinha a versão em pdf, recebi a versão impressa com direito a dedicatória.
Com Ola Hammarlund, Ola Hellsten, Linda Gustafsson, Thomas Karlsson e Knut Larsson.
Eu me senti um tanto perdida, em alguns momentos, sem saber como dizer o que eu queria, mas todos foram muito pacientes comigo. O que eu não consegui falar lá, eu posso compensar por mensagens, e-mails, etc. O importante foi ter esse contato, mostrar meu interesse em conhecer mais e, principalmente, levar para lá um pouco dos quadrinhos do Brasil. Deixei na Serieteket, que me foram dados por quadrinistas brasileiros que agora fazem parte do acervo do Kulturhuset. Espero que, em breve, haja quadrinhos brasileiros em terras nórdicas.

Sei que esta viagem e estes contatos ainda vão render muitas páginas de pesquisa, ainda este ano. E já tenho planos de retornar, com um inglês muito melhor eu garanto.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

ENCONTROS EM PORTUGAL OU COMO TRANSFORMAR FÉRIAS EM UMA FORMA PRAZEROSA DE AMPLIAR SEU CAPITAL CULTURAL

Café Tintin, em Lisboa.
Eu havia imaginado que faria uma narrativa sequenciada da minha viagem à Europa. Eu pretendia escrever um pouquinho todo dia, para não perder os detalhes. Mas, ao cair da noite eu estava cansada ou distraída conversando com os amigos do Brasil, aí o relato ficava pra o dia seguinte. Assim, talvez muitos detalhes se percam ou alguns nomes sejam esquecidos, mas espero poder tirar da memória recente a maior quantidade de referências possíveis.

Como no meu primeiro texto eu falei do meu encontro com Cecília Capuana, nada mais justo que neste eu fale do meu encontro com outros autores e artistas. Para isso vou retornar ao início, à minha primeira parada, e base apoio logístico, Portugal.

No dia 12 de janeiro eu tinha uma missão: ir à Bedeteca de Amadora e lá deixar alguns exemplares de fanzines, livros e Histórias em Quadrinhos. O material me foi dado, em sua maioria, por colegas da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS) para fazer parte do acervo da Bedeteca de Amadora. O material teórico, inclusive, foi muito festejado. Livros sobre quadrinhos ainda são poucos, mas a produção acadêmica tem crescido muito e cada adição serve tanto para valorizar os quadrinhos enquanto produto cultural quando para mostrar como a pesquisa neste campo tem avançado.

Geraldes Lino e José Ruy.
Fui recebida por Cândida, a responsável pela Bedeteca. Pessoa maravilhosa. Recebi em troca alguns livros produzidos em Amadora, que pretendo usar em breve para novas pesquisas. Aliás, acho que 2017 vai ser o ano de pesquisa para mim. Longe do marasmo de 2016, sinto-me inspirada e animada a finalizar antigos projetos e emplacar novos. Inclusive já tenho um artigo encomendo para fevereiro, mas este é um assunto para outra postagem.

Passei praticamente uma manhã inteira e parte da tarde em Amadora e, detalhe, eu fui sozinha. Eu me virei, claro. Quando decidi que viajaria completamente sozinha para o exterior sabia que ia precisar de jogo de cintura em muitos momentos. Vou dizer uma coisa, passei uns bons apertos, coisa que nunca vivenciei no Brasil, mas não reclamo. Como sabiamente disse meu amigo filósofo Gabriel “o que não me mata, me fortalece.” E foi isso mesmo.

Mas voltando a Portugal, eu reencontrei meu querido amigo e especialista em fanzines Geraldes Lino, isso ainda no dia 12 de janeiro, no Café Tintin, na Avenida de Roma, em Lisboa. Conversamos bastante sobre assuntos relacionados a quadrinhos, política e, claro, sobre os Festivais de Angoulême e Amadora. Depois fui apresentada a um restaurante português, "O Prego da Peixaria", que possui um cardápio especial de Hambúrgueres.
Hambúrguer de salmão com choco.

Eu pedi um hambúrguêr de Salmão com choco. Uma delícia, eu recomendo. Ele vem acompanhado de batata doce frita em forma de palitinhos. É muito gostoso. Claro, tudo acompanhado de vinho. Vou dizer que, até agora, acho que só não tomei vinho quatro dias durante a minha viagem (estou no 12º dia). Eu brinquei com muita gente dizendo que tomaria vinho todo dia. Não é que isso quase foi verdade? Na casa de amigos, em restaurante e no avião. Sempre tinha vinho.

Fechando a parte de Portugal, pelo menos esta primeira parte, no sábado, dia 14 de janeiro eu fui convidada para participar do “Almoço do Mosquito”. O Mosquito foi um importante periódico que circulou em Portugal que surgiu em 1936 e circulou até o final da década de 1980. A revista abriu espaço para revelar vários talentos dos quadrinhos em Portugal.

Há alguns anos tem sido realizado um almoço de confraternização entre antigos colaboradores, editores e leitores do periódico. E lá estava eu, entre eles. Pude rever o famoso quadrinista português José Ruy, de que sou fã, e conheci jovens talentos como Luiz Simões. Eu me encantei com um professor aposentado e pesquisador Antônio Miguel, com quem fiquei  conversando durante quase todo o almoço. Foi muito interessante, muito enriquecedor.
Luiz Simões desenhando José Ruy.

Uma curiosidade: o almoço foi em um restaurante de comida mineira, olham só! A ideia que os portugueses têm de comida mineira é bem diferente da minha. Eu sou mineira, né gente! Mas eles tentaram. Eu me lembrei de Trina Robbins, que ficou apaixonada por picanha, quando esteve no Rio de Janeiro. Ela achou um restaurante brasileiro em São Francisco e, claro, pediu picanha. Como ela reclamou! Aparentemente a picanha nos Estados Unidos não é tão boa quanto à do Brasil.

Após o almoço fomos a Amadora. Pois é, voltei à bedeteca. Era a inauguração da exposição que homenageia a obra de Fernando Relvas. Muito bonita, por sinal. Eu conheci o autor quando fui a Portugal pela primeira vez. Aliás, ele foi uma simpatia comigo e até me enviou sua última História em Quadrinhos em pdf. Uma gentileza e tanto. Uma merecida homenagem, para um autor talentoso que vem superando muitas dificuldades para continuar produzindo.
Exposição sobre Fernando Relvas,
na Bedeca de Amadora
.

Por fim, neste mesmo dia, fiz minha já tradicional visita à casa do amigo André Diniz, que se mudou para Portugal no início do ano passado. André é um dos meus quadrinistas brasileiros preferidos. E já era antes de eu o conhecer pessoalmente. Eu gosto muito do trabalho que ele faz com quadrinhos didáticos. Todo ano eu coloco meus alunos para lerem pelo menos um. Ano passado foi a Guerra de Canudos. Roteirista e desenhista, André tem ganhado espaço no cenário internacional. Sua História em Quadrinhos além de receber prêmios no Brasil, já foi publicada em Francês.

Fechou-se assim, minha primeira etapa da viagem, pelo menos a profissional. Depois eu devo falar sobre a parte turística, igualmente importante. Afinal, eu estou de férias!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

TOMANDO CHOCOLATE NO LOUVRE COM CECÍLIA CAPUANA

Tomando chocolate quente com Cecília Capuaba no Louvre.
Eu Não gosto de resumos. Eles tendem a simplificar as coisas e a beleza, pelo menos pra mim, está nos detalhes. Eu me irrito quando pergunto animadamente a uma pessoa “E aí, como foi?” e ela simplesmente responde “Foi bom!” Ora, se uma pessoa tem interesse em saber o que aconteceu, ela não perguntaria. Então, detalhes, por favor.

Por isso eu fiz esta postagem, eu quero dar detalhes sobre um dos momentos mais incríveis da minha vida: eu conheci pessoalmente Cecília Capuana.

Cecília Capuana é uma pintora, desenhista e quadrinista italiana. Eu conheci o trabalho dela primeiro pela indicação de Chantal Montellier, uma quadrinista francesa. Depois através dos quadrinhos dela, que eu tive a oportunidade prazer de ler quando comprei meus exemplares da revista francesa da década de 1970, Ah! Nana!, da qual Cecília, Chantal, Trina Robbins e muitas outras quadrinistas participaram, entre os anos de 1976 e 1978. Ah! Nana! tem sido meu objeto de estudo desde o final do meu mestrado, há quase dois anos e, possivelmente, será o tema do meu doutorado se eu me animar a fazer.

Voltando a Cecília Capuana, como fui conhecer meu objeto de pesquisa pessoalmente?
 
Self de despedida!
Há alguns anos eu planejo fazer uma viagem longa ao exterior. No roteiro eu queria incluir duas coisas: Paris e Angoulême. Juntando meu suado dinheirinho eu consegui realizar meu desejo (darei detalhes separados em outras postagens) e fiz algo que eu não tinha planejado: passei algumas horas com Cecília. O local não poderia ser melhor, em um café super chique, no Louvre.  É, o Louvre, aquele museu onde está aquele quadro famoso, a Monalisa. Aliás, tirei retrato com elas: a Monalisa e a Cecília, claro.

Mas vamos aos detalhes. Eu fui a Paris, obviamente. Alguns dias antes eu recebi uma mensagem de Cecília perguntando quando eu estaria lá. Acabamos marcando um encontro, para o dia 17 de janeiro. Para a minha surpresa ela está residindo em Paris, pois, se entendi bem, o marido dela está trabalhando na França. Daí, fui eu alegremente caminhando pela Champs-Elysées em direção ao Louvre, numa terça-feira, com temperatura abaixo de zero.
 
Eu e a Monalisa!
O encontro foi ótimo. Marcamos na frente da grande pirâmide e fomos para o Café Marly. Tomamos chocolate quente. Caiu bem naquele dia frio. E conversamos, misturando francês e italiano. Vou uma doideira, mas conseguimos nos comunicar. Eu fiquei morta de vergonha no início, mas depois fiquei a vontade. Ela é uma pessoa maravilhosa, muito alegre e gentil. Ficamos lá cerca de uma hora e meia e depois eu me despedi.

Ah, por coincidência naquele mesmo dia eu soube que meu texto sobre Cecília havia sido publicado na revista Papiers Nickelés # 51, a última de 2016.  Fui a uma reunião na revista e a recebi em mãos. Acho que não tem como dizer que o dia 17 de janeiro possivelmente foi um dos melhores dias da minha vida.