segunda-feira, 19 de setembro de 2016

AS VIAGENS DE LOÏS - PORTUGAL


Em abril deste ano, quando foi a Portugal, ganhei do amigo Pedro Bouça um exemplar autografado de as Viagens de Loïs - Portugal, de autoria de Luís Differ e Jacques Martin. Foi um presente especial, por muitas razões. 

Primeiramente porque Jacques Martin é, de longe, um dos meus autores preferidos. Em segundo, porque o álbum é dedicado a Portugal e não apenas conta a História do país como, também a de seus principais monumentos, muitos deles eu conheci naquela ocasião. Finalmente, porque tenho uma queda por quadrinhos históricos. Os bons são resultado de pesquisa minuciosa e, invariavelmente, tornam-se um excelente recurso didático.

Mas é melhor esclarecer que não se trata de uma História em Quadrinhos, mas de um livro ilustrado baseado em uma série de HQs franco-belga chamada Les Voyages de Loïs. Esta série foi originalmente criada em 2003 por Jacques Martin, com ilustrações de Olivier Páscoa. Série, aliás, que eu não conhecia e que me despertou certa curiosidade. Ela é ambientada no século XVII, durante o reinado de Luiz XIII, pai  de Luiz XIV. Seu primeiro volume é dedicado a Versalhes.


Confesso que o autor Luís Differ era desconhecido para mim. Conheço poucos autores portugueses. Ele é quadrinista, arquiteto e professor de artes. Já Jacques Martin é um dos mais renomados autores de quadrinhos franco-belga, falecido em 2010. Martin deixou uma vasta produção, da qual falarei em outra ocasião.

Como outros álbuns históricos produzidos por Jacques Martin, Portugal possui ilustrações magníficas. Tenho, inclusive, um exemplar similar, das Viagens de Alix (em francês) que mostra a marinha antiga, também muito bonito (este feito em colaboração com Marc Henniquiau). Misturando textos históricos e ilustrações o livro Portugal nos apresenta a História de Portugal contada, também, a partir da sua arquitetura.

Lisboa e Porto são duas referências para o autor, que remonta aos tempos das grandes navegações e descobertas portuguesas, época do esplendor do reino lusitano.  Para quem conhece Lisboa, por exemplo, pode-se nitidamente identificar bairros, praças e construções que ainda existem. Ao mesmo tempo a obra nos traz detalhes e histórias de construções que desapareceram, vitimados por incêndios ou terremotos. Acho que não é exagero dizer que trata-se de material muito bom para trabalhar educação patrimonial. Eu, pelo menos, trabalharia, caso lecionasse em Portugal.


Igrejas, palácios, o grande aqueduto que corta Lisboa. Tudo desenhado com uma riqueza de detalhes que nos permite viajar no tempo. Eu queria ter lido o livro quando estava em Portugal. Mas a correria de uma viagem de turismo muitas vezes nos impõe horários apertados e nem sempre sobra tempo para algo simples como ler um livro, por exemplo. Se o tivesse feito, certamente iria observar com um olhar mais criterioso o espaço urbano lisboeta.

Lamentações a parte. Foi um dos melhores presentes que ganhei este ano. Aliás, não posso reclamar de 2016. Quem acompanha minhas postagens já deve ter visto que fui presenteada várias vezes, com quadrinhos estrangeiros, raridades, quadrinhos nacionais. Quase não estou dando conta de falar um pouco de cada um deles. Mas, por favor, isso não quer dizer que não quero continuar ganhando. Todos certamente terão espaço, nas minhas prateleiras e nos meus blogs.



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

DEPOIMENTOS DE TORTURADOS NA DITADURA

Ainda tenho ouvido muita gente dizendo que o Brasil precisa de intervenção militar e que a ditadura tem que voltar. Eu nasci durante a ditadura e era criança quando houve o endurecimento do regime. Minhas lembranças sobre a política são vagas e começam no governo de João Batista Figueiredo. Lembro-me dos pronunciamentos do Ministro Jarbas Passarinho e de ver na televisão resumos semanais das atividades presidenciais.

Não vi a repressão de perto. Venho de uma família humilde e que não se envolvia e pouco entendia de política. Mas sei que meu pai tinha medo e sabia o que poderia acontecer com quem fosse considerado um inimigo do Estado. Lembro-me que, aos nove anos cheguei à minha casa, depois da escola, dizendo que quando crescesse seria comunista. Meu pai quase teve uma parada respiratória. Palavras dele:

- "Não repete isso, senão a polícia vai vir aqui em casa, levar você e papai nunca mais vai te ver".

Nem todas as pessoas entendiam de política ou eram adeptas de uma ou outra ideologia, mas todos sabiam o que acontecia com quem desafiava o regime. Mas será que sabiam mesmo?

Sabiam o nível de sadismo ao qual os torturadores poderiam chegar?

Das mulheres grávidas torturadas e dando a luz na prisão?

Das crianças tiradas das mães ao nascer e que nunca mais foram encontradas?

Das pessoas que enlouqueceram ou se mataram por não suportar a crueldade de torturadores?

Muito do que aconteceu nos porões da ditadura ainda não foi revelado.  O desconhecimento dos fatos é o que leva muitas pessoas a apoiarem regimes autoritários e ditatoriais. A apoiarem golpes, como se apenas a tomada do poder pela força ou por mecanismos jurídicos discutíveis fosse solução para os problemas do país. Em minha opinião, a solução é o povo se educar, conscientizar, tomar a palavra pela razão e não pela força. 

Vou dar minha contribuição para este processo de educação, de conscientização, compartilhando um vídeo que foi ao ar pelo SBT em 2014. Assistam e entendam porque a ditadura e o fim da liberdade são ruins. Não porque eu disse, mas porque você vai ouvir da boca de quem sentiu na pele o que um regime sem limites pode fazer com o cidadão.

Quem sabe assim não se valorize mais a democracia, onde podemos errar, mas temos sempre a possibilidade de consertar o erro, por meio do voto e da pressão popular e não pela força e pela imposição de um governo que vai contra o desejo do povo.


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

MINHAS IMPRESSÕES SOBRE OS JOGOS PARALÍMPICOS

Se este ano eu matei a vontade de ir a uma Olimpíada achando que seria uma das melhores experiências da minha vida, eu não poderia estar mais enganada. Muito melhor do que as Olimpíadas foram as Paralimpíada.

O Rio 2016 recebeu para as Paralimpíadas cerca de 4 mil atletas, de 176 países. O grande número de países e atletas envolvidos já sinaliza para o fato de que se trata de um conjunto de competições com um significado muito amplo. Se o esporte, em si só, representa um esforço de superação, de teste, dos limites humanos para uma atleta paralímpico é muito mais do que isso.

O que eu pude observar nos dois dias em que fui ao Parque Olímpico assistir modalidades como natação, basquete com cadeira de rodas e goalball foi aquilo que eu sempre imaginei ser o tal “espírito olímpico”: a alegria de poder estar competindo.
Prova de natação, no Parque Olímpico, dia 10 de setembro de 2016. 
Saindo do jogo de handball, durante as Olimpíadas, eu encontrei com alguns membros da equipe francesa visivelmente aborrecidos por terem ficado com uma medalha de prata. Parece que para eles participar não foi suficiente.

Já entre os competidores das Paralimpíadas não havia tristeza em quem perdia, mas a satisfação de poder estar ali, numa quadra ou numa piscina, praticando esporte quando muita gente acredita que deficientes são pessoas limitadas.

Deixa eu contar uma coisa: todos nós temos limites, mas algumas pessoas se atrevem a superá-los. O que dizer de uma nadadora sem uma perna ou com um braço defeituoso que faz um tempo melhor do que um jovem saudável? Ou de uma cadeirante que, durante um jogo de basquete é derrubada e se levanta sozinha, com cadeira e tudo, como se fosse uma ninja?
Basquete Feminino com cadeira de rodas - Arena Olímpica, dia 13 de setembro de 2016.
Confesso que há um tempo atrás eu veria nestas pessoas os limites que o corpo ou a sociedade impõe a elas. Depois das Paralimpíadas eu sinto vergonha de não ser tão determinada quanto eles. Que Bolt nada! Estas pessoas, estes atletas, homens e mulheres são os verdadeiros heróis olímpicos.

E aí vem minha revolta com o tratamento que as Paralimpíadas receberam da mídia. O Brasil parou para as Olimpíadas mas, de certa forma, virou as costas para as paralimpíadas. A torre da Globo, por exemplo, que nos Jogos Olímpicos estava fervendo de gente, nas Paralimpíadas estava vazia e, acredito, fechada. Não estou afirmando que não havia ninguém fazendo cobertura mas, certamente, eram poucos jornalistas. Mesmo a presença da imprensa internacional estava pequena.

Havia poucos fotógrafos e poucos jornalistas em comparação com o evento anterior. Imagino que mostrar atletas deficientes competindo não atraia muitos patrocinadores.
Com jogadores de Goalball, da Suécia, na Arena do Futuro, no dia 13 de setembro de 2016.
Por outro lado, isso tem uma parte positiva. Por não ser um evento tão glamourizado quando as Olimpíadas, as Paralimpíadas abrem espaço para a inclusão de jovens e crianças que não teriam condições para assistirem a uma competição internacional de alto nível. Com um preço bem acessível foram disponibilizados ingressos para escolas, que lotaram as arenas. Crianças de escolas públicas, muitas delas de regiões carentes do Rio de Janeiro e cidades próximas, puderam participar dos jogos.

Isso, minha gente, faz toda a diferença!
 
Alunos e professores do Colégio Imaculada Conceição, de Leopoldina (MG), no Parque Olímpico, dia 13 de setembro de 2016.
Eu acompanhei um grupo da escola particular na qual trabalho e, no mesmo dia e nas mesmas competições, estava também um grupo de alunos da minha outra escola, municipal. Duas realidades diferentes compartilhando a mesma experiência. Nem posso dizer a alegria deles quando o nome da escola foi anunciado na Arena do Futuro, ou de como outros alunos fizeram a alegria de atletas tietando e tirando fotos.

Os atletas merecem este carinho. Os jovens precisam aprender com eles e com seus exemplos de superação.

Os jogos tem um papel duplamente pedagógico. Eles ensinam aos jovens o significado de inclusão, de solidariedade e de superação e, ao mesmo tempo, servem de incentivo para os atletas. E não para por aí. Após os jogos vão ocorrer as Paralimpíadas Escolares, em São Paulo, de 21 a 26 de novembro (clique aqui e veja o regulamento), com o objetivo de “estimular a participação dos estudantes com deficiência física, visual e intelectual em atividades esportivas de todas as escolas do território nacional, promovendo ampla mobilização em torno do esporte”.

Enfim, por tudo isso e muito mais eu me apaixonei pelos Jogos Paralimpícos que, com certeza, foram um sucesso e vão marcar a vida de todos que puderam assistir, seja pessoalmente, seja pela televisão (porque, felizmente, algumas emissoras transmitiram).

Um pouco de História
Eles foram idealizados foi Ludwig Guttman, neurologista alemão, que, em 1948, resolveu organizar uma competição esportiva com veteranos da Segunda Guerra Mundial que sofreram  com lesão na medula espinhal. Os jogos ocorreram em Stoke Mandeville, na Inglaterra. Quatro anos mais tarde, competidores da Holanda uniram-se aos jogos e, assim, nasceu um movimento internacional (atualmente chamado de movimento paralímpico) que conseguiu que os primeiros jogos com atletas portadores de deficiência fossem organizados em Roma, em 1960. No início foram 400 atletas envolvidos, atualmente o número é dez vezes maior.

Os Jogos Paralímpicos normalmente ocorrem no mesmo ano dos Jogos Olímpicos e, desde as Olimpíadas de Seul, em 1988, também têm sido sediados no mesmo local. 


Curiosidade: Goalball
O  Goalball é uma modalidade esportiva criada exclusivamente para pessoas cegas ou com baixa visão. Teve início na Alemanha, em 1946, como forma de ressocialização de ex-combatentes que haviam perdido a visão, ou parte dela, durante a II Guerra Mundial. O esporte foi idealizado pelos professores Hanz Lorenzen e Sepp Reindle.

O Goalball é um esporte de equipe, disputado por dois times com três jogadores e três atletas reservas. Todo jogador deve, obrigatoriamente, utilizar venda oftalmológica durante as partidas, de modo que um atleta com visão parcial não obtenha qualquer vantagem. O goalball é disputado nas categorias masculina e feminina.

As partidas são disputadas em dois tempos de 12 minutos, com três de intervalo. Quando uma equipe abre dez gols de vantagem, o confronto é encerrado imediatamente, não importando o tempo da partida.

Mesmo que ainda pouco conhecida no Brasil, a modalidade conta com a intensa participação de pessoas com deficiência visual. Justamente devido ao grande número de atletas, o Brasil teve uma enorme evolução neste esporte, ganhando, pela primeira vez, a medalha de prata nas Paralimpíadas de Londres em 2012.

Trecho adaptado do site da AME


IMPRENSA ALTERNATIVA NA DITADURA - O PASQUIM

Adaptei uma pesquisa que fiz no mestrado para sala de aula, sobre o Pasquim e a imprensa alternativa na Ditadura Militar. Espero que gostem!


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O TIO PATINHAS, OS QUADRINHOS E O CAPITALISMO

Imagem disponível em: http://zip.net/btts2h, acesso em 09 de set. 2016.
Eu ganhei recentemente duas HQs do Tio Patinhas, personagem icônico da Disney, criado por Carl Barks, em 1947. Pode parecer estranho mas eu nunca tive HQs do Tio Patinhas, nem quando era criança. Eu lia, claro! Pegava emprestado de amigos ou lia na casa de primos, mas nunca ganhei ou comprei.

Primeiro, porque na minha infância, não havia o hábito na minha família de comprar livros ou HQs. Segundo, porque eu sempre tive preferência, desde pequena, por terror, aventura e superaventura então, quando comecei a juntar as moedinhas do lanche para comprar HQs fui logo atrás das da Marvel. Então, imagino que agora eu esteja fazendo o caminho inverso.

Mas ler o Tio Patinhas adulta e com um grau de informação mais apurado sobre o personagem é uma experiência interessante. É uma leitura que agora leva em conta a análise dos discursos e das representações que os quadrinhos trazem. Digamos que deixa de ser uma mera atividade de lazer para se tornar uma atividade intelectual. Então, agradeço duplamente a quem me presenteou, por estar estimulando minha mente e me proporcionando a oportunidade de poder refletir e contextualizar sobre vários temas.

Para quem não é da área de comunicação, história ou sociologia, talvez ache que eu estou exagerando um pouco. O que pode haver demais na leitura de um quadrinho criado pela Disney?

Não podemos esquecer que a Disney é uma mega empresa, que se espalhou por todo o planeta. Uma empresa que investe na comunicação, que vende sonhos através de HQs, animações e filmes. Uma empresa que consegue entrar na mente de crianças e de adultos. Ela estabelece padrões de comportamento, que hoje são globalizados, assim como estimula o consumo e dissemina ideologias. 

Todos eles estes produtos midiáticos trazem um discurso e, como bem diz Eni Orland (e eu não canso de repetir), todo discurso tem uma ideologia. Então posso garantir que a leitura de uma HQ do Tio Patinhas não é tão inocente o quanto parece. O Tio Patinhas é possivelmente a representação mais bem elaborada do capitalista moderno. 

Ele é uma releitura do protagonista de um Conto de Natal, o avarento Ebenezer Scrooge, uma das obras mais conhecidas de Charles Dickens e que já rendeu várias adaptações, tanto para quadrinhos quanto pra o cinema. O Tio Patinhas coloca o dinheiro como um valor máximo. Pode até ter ações altruístas, em determinado momento, mas defende os valores capitalistas acima de tudo. Carls Barks também se identificava com o personagem. Tinha fama de pão duro. Não era dado a gastos desnecessários e era um poupador.

E falando novamente de Barks, a primeira revista que eu ganhei, presente de uma aluna, é justamente uma coletânea de suas histórias, trazendo ainda algumas aventuras do Prof. Pardal. Em todas basicamente há alguma caça ao tesouro, viagens por lugares longínquos e alguma competição maluca sobre quem ganha mais dinheiro. Nas histórias mais longas, ele divide espaço com seus sobrinhos (Donald, Huguinho, Luisinho e Zezinho), mas também protagoniza quadrinhos de uma página, geralmente cômicos.

A outra HQ é sueca, ganhei um pouco depois, de um amigo, juntamente com mais outros quatro títulos. Cheguei a fazer uma postagem sobre uma delas, Bamse, que é tipicamente sueca (clique aqui para conferir) e devo postar algo sobre uma terceira revista, em breve. A revista Farbror Joakim (Tio Patinhas), não é muito diferente das publicadas pela Disney no Brasil, onde aparecem aventuras do pato mais rico do mundo. Ela possui a mesma dinâmica: Tio Patinhas está atrás de algum tesouro, acompanhado de seus sobrinhos, passa por dificuldades mas, no final, acaba tendo lucro de alguma forma. Claro, eu me limitei a “ler imagens” e traduzi uma ou outra palavra (mas a palavra slut, final, eu aprendi sozinha).

Em uma pesquisa rápida descobri que os quadrinhos da Disney tem uma grande saída na Suécia. O Pato Donaldo (Kalle Anka) é publicado naquele país desde 1948, sendo que o título Kalle Anka & Co.(Pato Donald e Cia), ao que parece, é a HQ  número um no mercado sueco. O personagem é muito popular por lá. O que não é de se surpreender, uma vez que a Disney vem conquistando mercados no mundo todo desde a primeira metade do século XX. Na Holanda, por exemplo, o nosso Zé Carioca é um dos personagens mais queridos. Em 2013 ele ganhou uma avó: Oma Carioca (Vovó Carioca) criada pelos artistas holandeses Jan Kruse e Bas Heymans.

Produto típico da cultura estadunidense, os quadrinhos da Disney se tornaram ao longo dos anos alvo de estudos e análises feitas por pesquisadores de diversas áreas. Uma das obras mais conhecidas, pelo menos no Brasil, sobre o assunto é o livro Para ler o Pato Donald – comunicação de massa e colonialismo, de Ariel Dofman e Armand Mattelart, publicado nos anos de 1970 e republicado várias vezes no Brasil. Mais recentemente, em 2002, Roberto Elysio dos Santos publicou o livro Para reler os quadrinhos Disney – linguagem, evolução e análise de HQs. Há, ainda várias biografias de Walt Disney, além de teses, dissertações e artigos que podem ser facilmente encontrados na internet, para download.

domingo, 4 de setembro de 2016

ENSINAR É UM PROCESSO AFETIVO

Olha a turminha animada. A primeira parada foi o Palácio de Cristal!

Ontem eu acompanhei uma turma de 30 alunos, com mais outras três professoras, a um passeio a Petrópolis (RJ). Já é uma tradição da escola presentear nossos alunos do nono ano com uma viagem, visto que eles devem nos deixar no final do ano letivo. A maioria deles está conosco desde a educação infantil, então, não é exagero dizer que tivermos uma parcela de participação na sua formação geral.

Foi uma das melhores viagens que fizemos. Os alunos foram muito elogiados onde fomos. Não houve graves incidentes. Bom, eu tropecei e cai na calçada, mas ninguém riu e eu não me machuquei. Também tive que limpar o vômito de um aluno que, definitivamente, não pode comer salgadinhos e entrar num ônibus para viajar (as outras professoras passaram mal de olhar e sobrou pra mim). Tirando estes pequenos infortúnios (que de certa forma até tornaram a viagem mais interessante), como eu disse, uma ótima viagem.

E sabem o que foi o melhor dela? A forma carinhosa como os alunos nos trataram.

Se a memória não me falha, lá pelos idos de 2014 eu fiz uma postagem com o título mais ou menos assim: “O que faz uma professora feliz”. De lá pra cá foram momentos felizes, tristes, uns até desesperadores. Faz parte acredito da vida de quem trabalha com um público que muda a cada ano. E muda de diversas formas.

Assumimos turmas novas ou continuamos com as antigas. Só que este “continuar” é bem relativo. O processo de educar (e aí incluo a educação escolar e a forma como se desenvolvem as relações em entre pessoas) é diferente a cada no mesmo que o público seja o mesmo. As pessoas mudam de várias formas.

Passaram o chapéu e me compraram uma caneca do Pokémon para mim: não sabia se ria ou se chorava, então, fiz os dois.

O professor muda porque em sua vida profissional e pessoal ele tem que constantemente fazer opções, escolhas. Acho muito difícil estas escolhas não afetarem seu trabalho ou suas relações pessoais. Com os alunos acontece o mesmo. Por exemplo, esta turma com a qual eu viajei eu acompanhei durante três anos. No primeiro ano, foi um paraíso. Tudo maravilhoso, alunos empenhados e interessados. No segundo ano, já não foi bem assim. Na verdade, foi um ano de conflitos. Creio que tanto eu quanto eles estávamos passando por mudanças, nos adaptando, tentando ultrapassar obstáculos.

Já no terceiro e último ano fica a impressão de que nós aprimoramos nossa convivência, a nos respeitar, a aprender juntos, porque aprendo com eles todos os dias. Existe uma harmonia que me permite ensinar sem medo de errar, que lhes permite questionar sem medo de serem coibidos.

Tudo isso me leva a concluir, depois de quase 23 anos de magistério, que participar do processo de ensino aprendizagem não pode ser possível (pelo menos pra mim), sem se desenvolver uma base afetiva com os alunos. Não que isso vai garantir o aprendizado do conteúdo, que nem sempre vai ser o que importa. 

Vejam bem, não estou me desfazendo do ato de ensinar História, mas afirmando que ensinar História vai muito mais do que datas e fatos. O professor de História forma pessoas. Daí o medo que se tem de nós, daí projetos de lei que querem acabar com nossa liberdade de expressão.

domingo, 28 de agosto de 2016

ANITA GARIBALDI: A REPRESENTAÇÃO HEROICA DE UMA BRASILEIRA

Anita Garibaldi. Imagem disponível em: http://zip.net/bftrBX, acesso em 28 ago. 2016.
Esta semana eu estava trabalhando com meus alunos do 8º ano as Revoltas do Período Regencial e, quando chegamos na Farroupilha, havia um texto de apoio contanto a história de Giuseppe e Anita Garibaldi. É incrível a fascinação que as meninas e mesmo os meninos têm pela personagem. Ficam atentos e querendo saber mais. O que não deveria ser uma surpresa: Anita vai muito além do arquétipo de heroína que a maioria deles conhece.

Mulher destemida e que não pensou duas vezes em correr atrás do que queria. Eu particularmente não vejo a história de Anita como uma história de amor, mas uma história de luta. Um mulher que lutou para ser aceita numa sociedade onde as mulheres eram invisíveis. Uma sociedade que, acima de tudo, não perdoava a rebeldia feminina.

Para quem não conhece a história desta mulher, prepare-se para uma narrativa que quase beira à ficção.

Ana Maria de Jesus Ribeiro da Silva nasceu na aldeia de Morrinhos, subúrbio do município de Laguna (SC). Segundo a historiadora Fernanda Aparecida Ribeiro, sua certidão de nascimento nunca foi encontrada, mas seus biógrafos acreditam que ela nasceu no ano de 1821. A primeira documentação oficial em que aparece é sua certidão de casamento, ocorrido no ano de 1835 na igreja Santo Antonio dos Anjos, em Laguna. Casamento este, aliás, que ocorreu após a morte do seu pai e por insistência da sua mãe (e provavelmente por motivações econômicas), com sapateiro Manuel Duarte Aguiar.

Anita não foi feliz no casamento, principalmente por conta do seu temperamento: ela não havia nascido para ser uma esposa cordata. Não chegou a ter filhos do primeiro casamento, o que deve ter facilitado sua decisão de abandonar o marido quando, em 1837, conheceu Giuseppe Garibaldi. Apaixonaram-se e ela o seguiu quando ele partiu de Laguna. Anita aprendeu a lutar com espadas e usar armas de fogo, convertendo-se na donzela guerreira que o acompanharia em vários combates.

Anita ganhou uma biografia em quadrinhos em 2010.
Imagem disponível em: http://zip.net/bktrQV, acesso em 28 ago. 2010
Sua reputação foi construída a partir na narrativa de seus feitos pelo próprio Garibaldi, ao ditar suas memórias a Alexandre Dumas, em 1860. Pra quem não sabe, Dumas foi um importante romancista francês. Entre suas obras mais conhecidas estão: Os Três Mosqueteiros, o Conde de Monte Cristo  e, claro, Memórias Garibaldi.

Um desses feitos ocorreu durante a batalha de Curitibanos, quando Anita é capturada pelo exército imperial. Presa, foi informada de que Garibaldi estava morto. Como o corpo  de Garibaldi não foi encontrado, Anita desconfiou que estava sendo enganada e, se aproveitando do descuido dos soldados que deveriam escoltá-la, rouba um cavalo e protagoniza uma fuga cinematográfica. Em fuga e sendo perseguida, atira-se no Rio Canoas com seu cavalo. Os soldados acharam que ela tinha morrido mas ela havia conseguido atravessar o rio. Depois de quatro dias vagando à míngua, ela consegue chegar à cidade de Vacaria (RS), onde encontra Garibaldi.

Casou-se com o revolucionário italiano em 26 de março de 1842, na paróquia de San Bernardino, no Uruguai. Em 1847, Garibaldi enviou Anita sozinha à Itália, para averiguar a possibilidade de seu retorno. Ele pretendia iniciar sua luta pela Unificação da Itália. Anita morreu depois da Batalha de Gianicolo, por conta de uma moléstia adquirida durante a fuga de Roma. Tinha então 28 anos e quatro filhos. Giuseppe viveria ainda até 1882.

Sobre a morte de Anita, a historiadora Fernanda Aparecida Ribeiro relata:

“Em 04 de agosto de 1849, Anita falece na Fattoria Guiccioli, em Madriole. Por causa da aproximação dos austríacos, seu corpo é enterrado às pressas na areia, nas proximidades do Adriático. Diz a tradição, repetida pelos historiadores, que dias depois uma menina encontra um braço para fora da sepultura. Avisadas as autoridades, descobre-se que se trata do corpo da companheira de Garibaldi. Os restos mortais de Anita ainda passam por vários enterros até serem finalmente depositados em um monumento em sua homenagem, em Roma, no ano de 1932” (RIBEIRO, 2011,p. 27).

Apesar da morte prematura, Anita marcou seu lugar na história, sendo considerada uma heroína não apenas no Brasil como também na Itália e no Uruguai.


Capa da revista n. 01 da Mulher Maravilha bem poderia ter sido inspirada na fantástica fuga de Anita Garibaldi, após a batalha de Curitibanos. Imagem disponível em: http://zip.net/bvtr7q, acesso em 28 ago. 2016.
Anita poderia facilmente receber o título de “Mulher Maravilha Brasileira”. Uma mulher que enfrenta todas as provações e que não precisa ser salva por um homem: ela mesma se salva. Uma imagem tão heroica de uma mulher brasileira do século XIX é quase surreal. Pode-se até questionar onde está a linha que separa a ficção da realidade.

Leitura recomendada:

DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. São Paulo: L&PM, 2000.


RIBEIRO Fernanda Aparecida. Anita Garibaldi coberta por histórias. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2001.

Assista!

sábado, 27 de agosto de 2016

POKÉMON GO: PROBLEMA OU SOLUÇÃO


Jogo Pokémon Go virou uma febre mundial. Pessoas de todos os tipos e todas as idades podem ser encontradas pelas ruas das cidades em busca dos monstrinhos digitais. Segundo especialistas, o jogo marca o início do uso de simulações, realidade aumentada e inteligência artificial em grande escala. Um avanço tecnólogo diretamente ligado à indústria do entretenimento. A partir dele podem-se agregar informações digitais à realidade para criar um mundo onde o real se mistura com o fictício.

Para quem não sabe, Pokémon surgiu como um jogo de videogame para o console portátil Game Boy da Nintendo, lançado no Japão em 1996 em duas versões Red e Green. Seu criador foi Satoshi Tajiri. A história gira em torno de um menino que vive em um mundo onde os jovens saem de casa cedo para se tornarem treinadores de pokémons. O treinador deve coletar o maior número desses monstrinhos e colocá-los para lutar contra os monstros de outros treinadores.

Uma temática simplista, mas que foi bem acolhida pelos consumidores de games, principalmente os mais jovens. No início, a Nintendo não apostou muito na ideia, mas em um ano foram vendidas cerca de um milhão de unidades do jogo e Pokémon acabou dando origem a outros produtos conquistando enorme popularidade.

Nos Estados Unidos o anime foi lançado pela Warner Bros, tornando-se uma das animações mais populares do país. Pokémon se tornou um dos maiores produtos da cultura popular japonês já exportado para países ocidentais. Um fenômeno midiático que está se reinventando na forma do Pokémon Go.

Mas quais os impactos deste jogo numa sociedade que tende a ser mais focada a cada ano na realidade virtual?

Lançado há poucos meses, Pokémon Go já se tornou alvo de debates entre educadores e até religiosos. Muitos contra, outros a favor do jogo que, ao que tudo indica, fará parte da rotina de muita gente durante um bom tempo.

Em Minas Gerais, por exemplo, Pokémon Go está sendo visto com preocupação pelo Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep/MG), que já está organizando encontros com diretores e pedagogos para analisar o que eles consideram “um problema”. Já outros educadores são mais otimistas e veem no jogo um potencial pedagógico que pode e deve ser explorado pela escola.

Fico ao lado dos otimistas. O jogo não tem que ser um problema, pelo contrário. O jogo pode, por exemplo, aproximar alunos e professores. Eu jogo Pokémon Go, sem nenhuma vergonha diga-se de passagem, e meus alunos me dão dicas de como aproveitar melhor o jogo. Isso tem me permitido uma aproximação maior com eles e, da parte eles, mais entusiasmo nas aulas uma vez que deixo de ser apenas a professora e passo a ser uma pessoa que compartilha com eles o mesmo interesse.

Pokémon Go tem ainda uma função socializante. Jogos digitais são, em geral, solitários e selados entre quatro paredes. Quando há outras pessoas participando é de forma distante, representadas muitas vezes por avatares. Pokémon Go força os jogadores a saírem de casa, a se encontrarem com outros jogadores, a conhecerem outras pessoas, a frequentarem espaços públicos como praças.
 
Caçando Pokémon na praça com alunos do terceiro ano do ensino médio. Eu estava em casa a noite e eles me chamaram para lanchar, depois foram me ensinar a caçar Pokémon na praça da cidade.
Os pais também estão saindo com seus filhos de casa. Os jovens e mesmo os adultos estão deixando de ser sedentários. Um colega professor comentou comigo outro dia que caminhou durante a semana quase 30 km. Ele está deixando de ir de carro para o trabalho e caminhando para poder capturar Pokémons. Eu diria que Pokémon, neste caso, faz muito bem à saúde.

Há quem reclame que pessoas estão entrando em museus apenas para caçar os monstrinhos. Mas que bom que estão entrando! Alguém já parou para pensar que, em algum momento, a pessoa pode parar para admirar uma obra ou dar atenção a uma exposição? Que ela pode querer passar a frequentar aquele espaço por outros motivos além do jogo?

Claro, estamos lendo notícias sobre pessoas que se acidentam, que são atropeladas ou mesmo que ficam presas em cemitérios por conta do jogo. Notícias deste tipo podem passar uma impressão negativa e apresentam um quadro exagerado e alarmante que não pode ser considerado regra geral.

Considerando prós e contras, eu particularmente acho que Pokémon Go veio para mostrar que jogos podem trazer benefícios tanto sociais quanto educacionais. Fico imaginando se seus inventores tinha isso em mente. Se tinham, merecem um prêmio!

Finalizando, para mostrar como Pokémon Go pode ser útil em sala de aula, separei algumas dicas de atividades  envolvendo o jogo, formuladas pelos professores Rafael Lucena, professor de biologia do Stoodi; Roger Tavares, professor da UFRN, atualmente no pós-doutorado em Portugal; e Leonardo Freitas Alves, professor de português da rede privada, em Brasília (veja a postagem original, com todas as sugestões, clicando aqui):

LINGUAGEM
  • Pedir que seus alunos escrevam histórias baseadas em uma aventura vivida por um dos pokémons de sua coleção;
  • Pedir que seus alunos escrevam um diário sobre o que viram e aprenderam jogando, incluindo pontos históricos ou turísticos;

MATEMÁTICA/ FÍSICA/ QUÍMICA
  • Usar as características do pokémons do jogo para ensinar probabilidade, aplicando-a sobre o cálculo das chances de determinados pokémons vencerem os oponentes em combates;
  • Usar conceitos da velocidade e trajetória da física para calcular a distância e tempo da captura dos pokémons;

BIOLOGIA
  • Evolução: como os conceitos de evolução se relacionam com a evolução dos pokémons do jogo?;
  • Diversidade biológica: por que alguns pokémons são mais comuns que outros? Qual a relação entre seus poderes e as reais capacidades dos animais a que os pokémons são comparados?;

GEOGRAFIA
  • Usar o jogo para discutir posicionamento e direção; abordando por exemplo a discussão sobre em qual ponto cardeal está o ponto de interesse mais próximo no jogo;
  • Pedir para que os alunos desenhem um mapa com a área onde localizaram seus pokémons.


LINKS CONSULTADOS

DINIZ, Ana Beatriz. Pokémon Go e Educação: preparem-se, muita coisa vai mudar. Disponivel em:  http://zip.net/bptsfP, acesso em 27 ago. 2016.

EDUCAÇÃO em tempos de ‘Pokémon Go’. Disponível em:  http://zip.net/bbtrwj, acesso em 27 ago. 2016.

POKÉMON e suas Origens no Videogame. Disponível em: http://zip.net/bctrKg,

PROFESSORES aproveitam febre do Pokémon Go; veja mais de 20 dicas. Disponível em: http://zip.net/bltq6Y, acesso em 27 ago. 2016.



sexta-feira, 26 de agosto de 2016

INSCRIÇÕES PARA O 25º CONCURSO NACIONAL DE POESIAS AUGUSTO DOS ANJOS


As inscrições para o  25º Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos serão encerradas na sexta-feira, dia 2 de setembro. O concurso é promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Leopoldina.  A temática é livre. Clique aqui para ver a íntegra do edital. A Ficha de Inscrição estará disponível no blog da Academia Leopoldinense de Letras e Artes (ALLA) e pode ser acessada clicando aqui. A ficha deve ser enviada junto com a(s) poesia(s).

O Concurso de poesias Augusto dos Anjos tornou-se um dos eventos mais prestigiados do país, recebendo a cada ano centenas de inscrições, inclusive do exterior. Não deixe de divulgar e prestigiar.


Premiação
O concurso premiará cinco poesias e três intérpretes, segundo os critérios da Comissão Julgadora.

Confira a premiação dos autores das poesias vencedoras:
• 1º Lugar: R$ 1.500,00 (hum mil e quinhentos reais)
• 2º Lugar: R$ 1.000,00 (hum mil reais)
• 3º Lugar: R$ 800,00 (oitocentos reais)
• 4º Lugar: R$ 500,00 (quinhentos reais)
• 5º Lugar: R$ 300,00 (trezentos reais)

Confira a premiação dos intérpretes das poesias finalistas:
• 1º Lugar: R$ 500,00 (quinhentos reais)
• 2º Lugar: R$ 300,00 (trezentos reais)
• 3º Lugar: R$ 100,00 (cem reais)