sábado, 9 de janeiro de 2016

ENTREVISTA COM CHANTAL MONTELLIER

Entrevista a seguir foi realizada no dia 26 de janeiro de 2015. Na verdade é uma parte dela, que eu traduzi (então peço desculpas antecipadas caso o texto não fique totalmente claro) que acredito seja de relevância geral. 

Chantal é muito direta nas suas respostas, é pragmática e não “papas na língua”. Deixa bem claro o que pensa sobre a situação atual dos quadrinhos na França, seja sua utilização pedagógica, sua tendência editorial e a participação das mulheres. Ela não tem uma visão “cor de rosa” sobre o futuro da indústria do quadrinhos, no que tange ao engajamento político e social dos autores e autoras, privilégio de quem tem uma larga experiência construindo uma carreira onde não faltaram obstáculos.

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Natania Nogueira - Dentro da sua experiência profissional, como a senhora avalia o potencial político e pedagógico das Histórias em Quadrinhos?

Chantal Montellier - Se eu me recordo dos números, ao longo de 2014 mais de 5000 álbuns de quadrinhos foram lançados na França. Portanto o gênero parece prolífico e bem sucedido.  Se olharmos o conteúdo desses álbuns, eles possuem bastante diversidade dentro da qual a política e a pedagogia são ainda minoritárias. 

Os quadrinhos são um artesanato, uma arte, que associa texto e imagem, multiplicando desta forma suas potencialidades. A força de uma obra deste gênero, por menor que seja, deve-se – além da sua atratividade - à sua distribuição e difusão. Ao contrário de uma pintura ou uma escultura, um álbum de HQ pode ser transportado consigo, ele pode ser visto e lido em toda parte, das prateleiras das livrarias às bibliotecas, mediatecas e gibitecas públicas ou privadas, mesmo em um consultório médico ou no transporte público. Uma HQ pode também ser distribuída na forma de um panfleto na saída de uma empresa ou de uma fabrica, e isso foi muito praticado durante certa época (nos anos 1970)... Daí uma sutil reação para recolocá-los no seu lugar.  Atualmente as HQs têm servido para fins comerciais, distrair crianças e adolescentes pré e pós-púberes e “renarcisar” alguns “bobos”[1] com problemas de ego, daí a onda recente de autobiografias dos últimos anos (vide uma estrutura editorial como Egocomix).

Dito isso, este potencial político e pedagógico é próprio – em diferentes proporções – a toda forma de expressão e não apenas aos quadrinhos.

Uma coisa que me parece evidente, hoje em dia, é que a HQ comercial e de entretenimento domina claramente o mercado, enquanto quadrinhos como "ferramentas" de emancipação, de tomada de consciência, de liberação e de educação popular estão, eu acredito, muito mal representados. O potencial pedagógico e político desta mídia é considerável, mas relativamente pouco e mal explorado.  Também deve ser dito que um engajamento (político, sindical, feminista) que automaticamente reduza o público (sobretudo o jovem) não é em geral bem visto pelos editores.

Pouquíssimas são as pessoas que, como José-Louis Bocquet da Dupuis, se atreveram a consagrar uma coleção à redescoberta de grandes personagens históricas, muitas delas do sexo feminino, como Marie Curie ou Rose Valland. Sem mencionar editoras como Actes Sud ou Denoël, que me permitiram redescobrir Christine Brisset (L’Insoumise) ou reinvestigar o caso Rey-Maupin (Les Damnés de Nanterre) e falar sobre o que realmente aconteceu em Chernobyl (Tchernobyl mon amour), muito distante do que foi apresentado ao público. Além disso, estamos numa época em que o consensual e o “pensamento único” (forma inédita de totalitarismo soft) reinam supremos e a produção sofre com isso.

N.N. - Como a senhora vê na atual geração de mulheres cartunistas francesas o engajamento político e social? Algum nome se destaca em especial?

C. M. - Há mais mulheres aparecendo hoje em dia do que nos anos anteriores, mas muitas destas autoras, na maioria trintonas, falam acima de tudo de coisas do foro íntimo (relacionamentos entre casais ou entre mãe e filha). A despolitização me parece bastante evidente assim como o desengajamento feminista, enquanto que os problemas entre homens e mulheres estão longe de serem resolvidos. As HQs chamadas de “girly” (femininas) são um exemplo claro do que eu estou descrevendo aqui.

A única quadrinista que mostra algum engajamento feminista (e social) na sua obra é  Catel Muller, com sua série de álbuns sobre mulheres excepcionais, de Olympe de Gouges à Benoite Groult. Ela recebeu o prêmio Artemísia do quadrinho feminino por essa obra. Mas Catel, nascida em 1964, tem atualmente mais de 50 anos…

Eu acredito que podemos dizer sem medo de errar que a sociedade patriarcal francesa não nos permitiu ter “herdeiras”. E é o mesmo na Itália onde Cécilia Capuana também se vê afastada das novas gerações que, ainda mais do que na França, têm muita dificuldade em se estabelecer no mercado.

N.N. - O engajamento das quadrinistas está ligado às ideias feministas ou simplesmente a outras propostas políticas?
C. M. - As “ideias feministas” não se deram bem e atualmente são mal vistas, particularmente pelos editores de HQs. Os leitores são predominantemente homens e a sociedade regrediu em relação a estas questões devido ao aumento do desemprego, da precariedade, da despolitização, do individualismo e do triunfo incontestável do liberalismo, que impõe a lei de todos contra todos, estes mesmas editores procuram surfar na onda de um imaginário igualmente retrógrado (do meu ponto de vista). Magia (negra), fantasmas, onirismo… histórias medievais e/ou pós-apocalípticas… Trolls, dragões, sereias, demônios, monstros e mutantes de todos os tipos vão de vento em popa. Tudo isso em termos de HQs de massa.

Para a classe média alta as HQs “bobo” (da burguesia boêmia) e seu narcisismo estão por todo lado. A sociedade e o que a constitui, suas classes, suas instituições, suas evoluções ou involuções, são pouco exploradas, mas, bem, não somos sociólogos, somos apenas testemunhas…

Restam os aventureiros que encontramos nas grandes editoras com divisões dedicadas às HQs (geralmente muito pouco desenvolvidas). No meu caso, são a Actes Sud e a Denoël Graphique. Os responsáveis por estes setores são muitas vezes as pessoas que conheceram o período dos anos 70/80 e que têm uma abordagem menos estritamente comercial do que os editores mais jovens. Eles também são menos tendenciosos e mais conscientes do jogo político.

N.N. - Dos trabalhadores da indústria dos quadrinhos na França, apenas 10% são mulheres. A senhora acha que a indústria dos quadrinhos ainda limita propositalmente a participação feminina ou não existe interesse das meninas em investir na carreira?

C. M. - Eu acho que sim. Os editores de HQs, com uma exceção, Marie Moinard da “Des ronds dans l’eau”, são homens. Eles não se reconhecem nas imagens de mulheres. Elas os desestabilizam. Sem mencionar o medo da castração... Um dos meus editores, o falecido John Paul Mougin (Ed Casterman) afirmava categoricamente que "quadrinhos para mulheres, não vendem. É uma coisa para meninos, para que eles possam masturbar debaixo do edredom!”.

N.N. - Iniciativas como o prêmio Artemísia vêm tirando jovens cartunistas das sombras e dando visibilidade à sua obra. Até que ponto prêmios como a Artemísia têm seu valor reconhecido pelas editoras francesas? Elas têm contratado mais mulheres nos últimos anos?

Nem sempre elas estão na sombra. A nossa última vencedora (2015), uma alemã chamada Barbara Yeling já é conhecida na França, com os dois álbuns anteriores publicados pela Actes Sud.

Sim, estão contratando um pouco mais, até onde eu sei. As editoras gostam de prêmios, de modo geral. Mas fazemos isso acima de tudo para honrar e encorajar o trabalho criativo das mulheres.

Obs: Agradecimento especial ao amigo Pedro Bouça, que deu um revisada na minha tradução e a deixou mais inteligível.







[1] Bobo é uma expressão usada para designar a chamada “Burguesia Boêmia” (bourgeois bohème) , o que seria o equivalente, a grosso modo, ao nosso “mauricinho”,

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