domingo, 19 de fevereiro de 2017

A SUBVERSÃO DO CARNAVAL


Carnaval de 2016.
Ontem à noite o Carnaval começou anunciar sua chegada em Leopoldina com o Bloco do Pó de Giz, formado por professores. O que me fez recordar dos meus primeiros carnavais lá no início da minha adolescência. 

Recordei do meu primeiro baile no Clube do Moinho, aos meus doze anos, acompanhando minha tia. A primeira pessoa que reconheci no meio da multidão de foliões foi meu professor de matemática, o rígido professor Waldir. Ele estava com um copo de cerveja na mão (ele só tinha um braço), um bermudão, uma camiseta e vários colares havaianos pendurados no pescoço. 

Eu fiquei chocada! Era como se eu nunca o tivesse visto na minha vida. Era outra pessoa. Ou não era?

Para mim, a estudante de 12 anos, ver meu professor num baile de carnaval, fantasiado, bebendo e sambando era algo extremamente escandaloso. Foi a primeira vez que eu percebi que a imagem que construímos de alguém nem sempre representa o que ela é na realidade.

O professor Waldir foi meu exemplo e meu libertador. Todos os anos, no carnaval, eu saio como eu quero: com shorts curtos, camisetas, fantasias extravagantes ou simples. Às vezes escandalizo meus alunos mais jovens, às vezes participo das brincadeiras com meus alunos mais velhos.

Mas não é pra isso que serve o Carnaval? Para que as pessoas possam se libertar das suas inibições, deixar suas emoções aflorarem livremente sem a preocupação de censurado ou mesmo condenado socialmente pelas suas ações?

Afinal, no carnaval tudo pode. Era assim na Idade Média, com a Festa dos Loucos, quando se colocava de lado as regras rígidas do cristianismo por três dias e se abraçava sem medo a subversão. Da mesma forma o entrudo no Brasil, no século XIX, oferecia aos seus participantes a oportunidade de extravasar toda a tensão acumulada durante o ano. Os bailes de máscaras, à moda veneziana, introduzidos mais tarde, permitiam que homens e mulheres, protegidos pelo suposto anonimato oferecido pelas mascaras, deixassem aflorar suas paixões.

Carnaval é tempo de libertação. Homens se vestem como mulheres, mulheres usam fantasias extravagantes, crianças correm e brincam, atirando confetes e serpentinas. É época de uma transgressão saudável e libertadora.

Talvez meus carnavais não sejam mais como eram na época do saudoso professor Waldir. Mas sempre é bom ver a alegria das crianças e dos jovens e achar graça de quando me veem com uma fantasia ou uma roupa menos comportada, como se aquilo fosse à coisa mais impressionante do mundo.

E embora talvez algumas possam pensar que isso causa problemas no meu trabalho, se enganam. Eu aprendi que o professor Waldir era ao mesmo tempo o folião e o professor, mas sabia que na sala de aula prevalecia o professor. Mas havia uma admiração muito grande por esta dicotomia. Eu tinha um ótimo professor, que se tornava uma pessoa alegre e festiva na qual me inspiro até hoje.

Postagem feita em memória do professor Waldir, um grande matemático e um excelente folião.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

MINHAS ÚLTIMAS PUBLICAÇÕES SOBRE HISTÓRIA DOS QUADRINHOS E SOBRE QUADRINHOS

Eu colaboro esporadicamente para alguns sites como o site História Hoje e o Lady's Comics e para a revista francesa especializada em quadrinhos Papiers Nickelés. Como a carga horária de professora é pesada, e eu não consigo deixar de levar serviço para casa, nem sempre posso enviar regularmente textos. Mas, entre trancos e barrancos, sempre sai alguma coisa que os editores consideram razoavelmente bom para publicação. 

Minhas últimas duas publicações foram uma em dezembro e agora uma em fevereiro. Em dezembro saiu um texto meu sobre Cecília Capuana (derivado de um texto que eu publiquei aqui no blog, então digamos que tenho uma versão em português, caso algum se interesse, clique aqui para ler) na edição n. 51 da Papiers Nickelés. 

Agora, em fevereiro, publiquei uma postagem sobre Angoulême, no Lady's Comics (afinal, fui lá como representante do grupo), sobre a presença feminina no festival deste ano (clique aqui para conferir o texto). É um texto que meio que complementa os que eu publiquei aqui, sobre Angoulême, além de trazer muitas novidades.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

THE INK LINK – ARTISTAS DOS QUADRINHOS ENGAJADOS

Um dos acontecimentos que marcaram o 44º Festival Internacional de Angoulême, e sobre a qual eu tinha decididamente que escrever, foi o lançamento da associação The Ink Link, que reúne quadrinistas em torno de causas sociais. Ela foi oficialmente apresentada durante o festival de Angoulême, no dia 27 de janeiro, às 18 horas, com a presença de seus cofundadores Laure Garancher, Mayna Itoiz e Wilfrid Lupano. Eu até confirmei presença no coquetel de lançamento, mas acabei não podendo ir porque no mesmo horário eu tive outro compromisso.

Como já relatei em outras postagens, tudo em Angoulême foi muito intenso. Eu recebi vários convites para lançamentos, coquetéis e reuniões dos quais não consegui participar. Algumas conferências eu não consegui assistir, também não visitei nem metade das exposições. Faltou um pouco de organização da minha parte, claro. Como foi minha primeira vez eu não fazia ideia do tamanho do festival, mesmo com a programação em mãos.

Não pude ir mas procurei me inteirar sobre o assunto. O The Ink Link é uma associação fundada por quadrinistas que, entre outras coisas, cria e materiais educacionais, especialmente na forma de Histórias em Quadrinhos, para projetos voltados para a promoção da saúde, dos direitos humanos, educação ambiental, etc. A associação considera os quadrinhos como uma ferramenta eficaz para o diálogo intercultural. A linguagem dos quadrinhos, por assim dizer, tem o poder de levar o conhecimento comunidades que passam por dificuldades em várias áreas, além de facilitar o diálogo entre diferentes culturas.

A associação foi justamente criada para isso: para apoiar causas sociais, atividades de desenvolvimento e os valores humanos através das artes visuais. Para isso conta com uma rede de artistas engajados que pretendem usar dos recursos da nona arte para ajudar no trabalho realizado por organizações não governamentais e associações sem fins lucrativos. The Ink Link acredita no poder da educação e da comunicação através dos quadrinhos.

E tudo começou na América do Sul, quando Laure Garancher, que também é perita do Ministério Francês dos Negócios estrangeiros, recebeu um financiamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o trabalho em uma comunidade amazônica, há cerca de um ano e meio. Faziam parte da sua equipe os outros dois cofundadores da The Ink Link, Mayana Itoiz e Wilfrid Lupano. 
O grupo trabalhou com populações que viviam isoladas na Amazônia na região do planalto das Guianas, que no Brasil envolveu os Estados do Pará e do Amapá. O maior obstáculo para o trabalho, que tinha por objetivo ensinar a população a se prevenir contra doenças como a malária, era a comunicação. A solução veio através da arte, no caso da arte sequencial.  
Através de ilustrações a equipe conseguiu orientar, por exemplo, garimpeiros a usarem um kit distribuído pela OMS para fazerem o autoexame para prevenção da malária. Ao retornarem à França decidiram repetir a experiência. Nascia em dois de setembro de 2016 The Ink Link, que atualmente reúne vinte profissionais das artes visuais, entre quadrinistas e animadores.
No site da associação podem ser acessados vários dos projetos já desenvolvidos e em desenvolvimento, assim como saber como contribuir para que os artistas possam continuar usando os quadrinhos ampliar a comunicação entre as pessoas, por meio da educação. O site da associação é http://www.theinklink.org/fr
Material produzido em Português para trabalhar com garimpeiros na Amazônia.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

OS DESAFIOS FINANCEIROS DOS PROFISSIONAIS DOS QUADRINHOS

Um artigo publicado por Quentin Girard, em 02 de fevereiro de 2017, para o site Liberation, apresenta uma realidade perversa da indústria de quadrinhos franco-belga: 36% dos quadrinistas vive abaixo da linha da pobreza. A grande concorrência e a superprodução são apontados como fatores que estão levando os artistas a terem seu trabalho desvalorizado e sendo obrigados a recorrer a um segundo trabalho, para garantir seu sustento. Segundo o artigo, para as mulheres ainda é muito pior: 50% das autoras estão abaixo da linha de pobreza, 67% abaixo do salário mínimo anual."[1] 

Tais dados justificam a preocupação dos organizadores do Festival Comic Strip (Fête de la Bande Dessinée) de Bruxelas, que criaram este ano o Prêmio Atomium, com o objetivo de incentivar os jovens a investirem e permanecerem na carreira de quadrinista. A pesquisa foi feita pelos Les Etats généraux de la bande dessinée, associação fundada em 2014, e que realizou o levantamento em 2016.

A pesquisa envolveu 1500 pessoas e entre os seus resultados estão os seguintes dados (aplicados à realidade franco-belga): atualmente 27% dos autores são mulheres (o que aponta um significativo crescimento, uma vez que dados em anteriores este número estava por volta de 13%), apontando para a crescente feminização da profissão, 56% dos autores pesquisados têm menos de 40 anos. A idade média das mulheres é de 34 anos, a dos homens 41 anos.

A partir destes dados e do próprio objetivo da criação do Prêmio Atomium, resolvi fazer um levantamento, envolvendo artistas de vários países, alguns deles envolvidos com o mercado franco-belga, outros veteranos aqui no Brasil e no exterior. Todos têm muito do que falar sobre as dificuldades da profissão e, ao decorrer do texto o leitor vai perceber que a vida de quadrinista não é fácil não, m lugar algum do mundo.


O quadrinista brasileiro Rafael Cordeiro ressalta, entre outras coisas, a falta de reconhecimento da profissão no Brasil e a existência das chamadas “panelinhas” (grupos fechados) que limitam as possibilidades de se conseguir contratos com editoras. Além disso, Cordeiro acredita que para os roteiristas é ainda mais difícil conseguir a atenção das editoras, porque “Um bom desenhista, mesmo desconhecido, não leva mais de 1 minuto pra ter o talento reconhecido. Pra avaliar um roteirista, o empregador - o editor - precisa de tempo. E no tempo corrido de todos, é mais fácil dizer não”.
A veterana Maria Cláudia França Nogueira, a “Crau da Ilha”, conhecida pela sua participação na revista O Bicho, publicada durante os anos da Ditadura Militar no Brasil, conviveu com vários cartunistas que conquistaram fama nacional e se consolidaram na carreira, como Laerte, Nani, Paulo Caruso e Chico Caruso, assim como outros que acabaram tomando outros caminhos, migrando para outras profissões. Ela acredita, pela sua experiência, que “o sucesso é para poucos, que aliam grande talento, vocação para se manter focado, persistência e saber aproveitar oportunidades”.
Por mais que se afirme, por exemplo, que no Brasil as coisas são difíceis, em outros países, economicamente mais desenvolvidos, os desafios são quase os mesmos.
A italiana, Cecília Capuana, que atuou no mercado francês nas décadas de 1970 e 1980, também encontrou muitas dificuldades. Como não possuía um agente era difícil oferecer seu trabalho em grandes editoras. No início da carreira ela fez ilustrações para jornais e até para uma empresa de transportes. Segundo Capuana, “é difícil de ser livre”.
Mas ser livre foi a forma pela qual Trina Robbins conseguiu ter seu material publicado nos anos de 1970, quando participava do movimento underground, nos Estados Unidos. Segundo Trina Robbins, enquanto as grandes editoras rejeitavam seu trabalho, como quadrinista underground ela nunca teve problemas em publicar seus próprios quadrinhos, pois as editoras underground estavam contentes em publicar o que vendessem “e eles sabiam que meus quadrinhos venderiam”.
Os quadrinistas suecos compartilham com seus colegas de outras nacionalidades as dificuldades de se manter apenas com seu trabalho com Histórias em Quadrinhos. 
Knut Larsson relata que a vida de um artista dos quadrinhos não é fácil e que é preciso saber gerenciar a carreira. Quando os livros têm uma boa vendagem consegue-se ter uma boa renda, caso contrário é preciso buscar por outras formas de sustento, com trabalhos alternativos. Uma opção é recorrer às subvenções. “Na Suécia pode-se candidatar a bolsas da Sveriges Författarfond e Konstnärsnämnden. Eles variam de um ano a vários anos de um salário mínimo. Não é suficiente viver inteiramente, mas é uma base econômica.” Mas a competição é muito grande. Muitos artista optam pelo ensino em escolas de arte ou uma escola de quadrinhos.
O quadrinista sueco, Fabian Göranson, que estava presente este ano no Festival do Angoulême, acredita que o mercado de quadrinhos está dividido em duas partes. De um lado estão os quadrinhos comerciais onde se encontram quadrinistas que conseguem viver inteiramente de produzir quadrinhos, mas têm liberdade artística limitada. Muitas vezes eles desenham um personagem que eles não criaram. De outro, há artistas que trabalham com quadrinhos independentes. Eles possuem liberdade artística, mas com poucas exceções eles também têm outros trabalhos, geralmente em campos relacionados. O próprio Göranson trabalha editor, ilustrador e tradutor. Possui colegas que atuam como professores de arte, animadores, etc.
O pesquisador sueco Thomas Karlsson reforça o depoimento dos autores e acrescenta que autores que conseguem publicar tiras em jornais e que, desta forma, criam um público leitor cativo, tem mais chances de atingir boas vendas em seus álbuns, o que é de certa forma um limitador para a maioria dos artistas.
Atualmente, um grande número de quadrinistas atua de forma independente, sendo que alguns poucos conseguem contratos com editoras para publicarem seus quadrinhos. Para muitos é preciso recorrer a financiamentos coletivos ou às suas próprias economias para terem seu material publicado.

Esta é uma das dificuldades destacadas por Cristina Eiko, quadrinista brasileira, que publicou muitos dos seus quadrinhos usando seus próprios recursos. Segundo ela, o caminho para quem que ter seu material publicado é penoso, seja por financiamento coletivo ou por edital do governo. E as coisas são simples, de acordo com Eiko, ela teve que aprender a fazer tudo na “marra”. “A gente tenta manter uma vida simples, para podermos ter uma reserva para imprimir a próxima HQ caso não tenha outro recurso.” Não há exatamente uma cartilha que ajude o quadrinista a encontrar o caminho mais fácil e rápido para ter seu material publicado.
Uma visão mais positiva vem de Germana Viana. Para ela “quadrinhos é missão de vida, eu nunca me senti tão completa e realizada trabalhando em algo que não fosse fazer quadrinhos”. Mas os quadrinhos ainda não são sua principal fonte de renda. Esta vem dos trabalhos que ela desenvolve com letreiramento e design para empresas, em sua maioria relacionados à área dos quadrinhos.
O mercado dos quadrinhos, apesar de especificidades, acaba tendo o mesmo comportamento de país para país, podemos citar o caso do premiado quadrinista brasileiro, André Diniz, que atualmente vive em Portugal. Para Diniz, o mercado dos quadrinhos é difícil e incerto. Há períodos de muito trabalho e outros em que “pode ficar um bom tempo sem entrar nada”. Além disso, falta seriedade e profissionalismo de algumas editoras, que nem sempre levam os projetos até o final.  A mudança para Portugal não alterou muito esse estado de coisas. Segundo André Diniz, “meu trabalho continua seguindo o mesmo caminho de quando eu estava no Brasil”.
Os exemplos de sucesso estão em todos os lados. Eles são as bandeiras tremulando ao vento e atraem a atenção dos jovens talentos. Quadrinistas iniciantes acabam percebendo mais tarde que não há glamour no mundo dos quadrinhos, mas, como em qualquer outra profissão, muito trabalho, dedicação e sacrifício.
Ter sucesso no mercado dos quadrinhos não é fácil, como também não é fácil se manter como artista plástico ou poeta, por exemplo. Onde a arte está envolvida é difícil monetarizar a obra de um artista. E é muito fácil esquecer que o mercado dos quadrinhos é um essencialmente capitalista e que as grandes editoras têm o lucro por objetivo, o que significa exploração do trabalho e o estímulo a uma competição nem sempre justa entre quadrinistas.

Entrevistas
Entrevista concedida por André Diniz, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Cecília Capuana, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Maria Cláudia França Nogueira “Crau da Ilha”, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Cristina Eiko, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Fabian Göranson, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Knut Larsson em 03 fev, 2017.
Entrevista concedida por Germana Viana em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Rafael Cordeiro, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Thomas Karlsson, em 02 fev, 2017.
Entrevista concedida por Trina Robbins, em 02 fev, 2017.
Fontes na internet
GIRARD, Quentin. “36% des auteurs de bd sont sous le seuil de pauvreté". Disponível em: http://www.liberation.fr/auteur/12249-quentin-girard, acesso em 03 fev. 2017.



[1] GIRARD, Quentin. “36% des auteurs de bd sont sous le seuil de pauvreté". Disponível em: http://www.liberation.fr/auteur/12249-quentin-girard, acesso em 03 fev. 2017.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

É POSSÍVEL TRABALHAR APENAS COMO QUADRINISTA?


A organização do 8ª Comic Strip Festival de Bruxelas, que vai acontecer entre os dias 1º e 3 de setembro deste ano, anunciou durante o Festival de Angoulême o maior prêmio de quadrinhos da Europa, pelo menos em termos monetários. O Festival Comic Strip terá pela primeira vez o Prêmio Atomium.

O Atomium irá oferecer um montante de € 100.000 em prêmios em dinheiro, a artistas como uma forma de incentivar seu trabalho. Segundo os organizadores do festival, o número de quadrinistas vem diminuindo a cada ano, dadas as dificuldades de muitos deles se sustentarem financeiramente na atividade.

O anuncio do prêmio ocorreu durante uma Conferência de imprensa do Festival de Angoulême deste ano, com a participação de Micha Kapetanovic, chefe do Comic Strip Festival, Jean-David Morvan, patrocinador do Festival 2017 e Thierry Tinlot, que se juntou à organização do Festival como um consultor.

A princípio serão oferecidos oito prêmios (clique aqui para conferir todos os prêmios), mas outros podem ser acrescentados até setembro. Os prêmios variam de 20.000 a 3.000 e podem incluir ainda um contrato com uma editora. Serão premiados jovens quadrinistas que, por exemplo, não tenham publicado mais de dois álbuns. Serão premiados trabalhos de humor, quadrinhos históricos e, por exemplo, quadrinhos que estimulem a prática da cidadania.

O Prêmio Atomium pretende ser um reforço financeiro a quadrinistas para que estes tenham condições de se dedicar mais ao trabalho sem precisar comprometer sua renda com atividades complementares. Na verdade, a organização do festival belga teme que a profissão entre em extinção, não atraindo as novas gerações. O que me leva a questionar a extensão do problema. É uma realidade franco-belga ou mundial?

Apesar da indústria dos quadrinhos ser muito lucrativa, o numero de quadrinistas vem diminuindo a cada ano. Durante boa parte do século XX foi recorrente o movimento de profissionais dos quadrinhos que migraram para outras atividades, geralmente ligadas às artes e à comunicação.
  
Na primeira metade do século XX nos Estados Unidos, por exemplo, ser quadrinista não era necessariamente uma profissão de prestígio e muitos artistas viam o trabalho nos estúdios como algo temporário. No Brasil, na mesma época temos vários exemplos de artistas plásticos, cartunistas e quadrinistas que desenvolviam diversas atividades como forma de complementar a renda familiar. Esta realidade não mudou muito nos últimos 60 anos e, ao que tudo indica, é mundial.

Eu tive a oportunidade de conversar com quadrinistas de várias gerações e de diferentes países a este respeito[1]. A maioria deles e delas relata dificuldades financeiras em se manter apenas com a profissão, e a necessidade de complementar a renda com outras atividades, muitas vezes ligadas aos meios de comunicação ou ao próprio mercado dos quadrinhos. Embora não se descarte a possibilidade do profissional dos quadrinhos conseguir se manter apenas com seu trabalho, esta é uma realidade usufruída por poucos.

É necessário refletir, também, acerca das preocupações dos organizadores do Comic Strip Festival. Até que ponto revelam um interesse real para com os profissionais que trabalham com quadrinhos. Até que ponto denunciam o interesse das editoras em garantir a manutenção e reprodução da mão de obra futura e, portanto, dos seus lucros. Afinal, os quadrinhos são uma indústria, forjada a partir de relações capitalistas.

Links consultados
De nombreux prix remis cette année lors de la Fête de la BD à Bruxelles. Disponível em: https://www.rtbf.be/culture/bande-dessinee/detail_de-nombreux-prix-remis-cette-annee-lors-de-la-fete-de-la-bd-a-bruxelles?id=9514819 , acesso em 01 de fev. 2017.

Brussels Comic Strip Festival will host Les Prix Atomium de la Bande Dessinée for the very first time. Disponível em: http://www.eturbonews.com/76996/brussels-comic-strip-festival-will-host-les-prix-atomium-de-la-b, acesso em 01 de fev. 2017.




[1] Estes relatos serão trabalhados na segunda parte deste texto.